Fim da escala 6×1: “O varejo não para. Quando o funcionário folga, alguém precisa ocupar o balcão”
A extinção da escala 6×1 – que permite ao empregador escalar o trabalhador por seis dias consecutivos com apenas um de folga – promete ser um dos debates trabalhistas mais complexos dos últimos anos no Brasil. O varejo, setor que emprega milhões de brasileiros e responde por 7% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, deve ser um dos mais impactados. A razão é estrutural: shoppings, supermercados e farmácias operam frequentemente sete dias por semana, com jornadas de 10 a 14 horas diárias. Reduzir os dias trabalhados, segundo o Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar), “cria uma lacuna imediata na operação — e preenchê-la tem custo”. Nas palavras do presidente do Ibevar, Claudio Felisoni de Angelo: “O varejo não para. Quando o funcionário folga, alguém precisa ocupar o balcão”.

Se a mudança for implementada de uma vez — o que os pesquisadores chamam de ‘implantação imediata’ —, a perda de geração de riqueza no varejo, conforme o Ibevar, variaria entre 3,6% e 6,1%, dependendo do segmento e do porte da operação. O setor de tecidos, vestuário e calçados seria o mais impactado nas pequenas lojas: queda de 6,1%.
O varejo físico depende de dois fatores de produção — trabalho e capital — e as margens do setor são historicamente estreitas. Segundo o Ibevar, um “choque repentino nos custos de folha de pagamento dificilmente consegue ser absorvido pelo caixa”. A consequência mais provável, apontam os pesquisadores, é o repasse ao consumidor: produtos mais caros e pressão inflacionária.
Para as grandes redes, o Ibevar aponta que “há uma válvula de escape que o pequeno comércio não tem: a automação”. Supermercados já operam com dezenas de caixas de self-checkout. “O pequeno comerciante de bairro não tem esse fôlego financeiro — e pode simplesmente fechar as portas”, diz o instituto.
O impacto do PIB
Considerando que o varejo de bens representa cerca de 8% do PIB brasileiro, a redução na geração de riqueza do setor, na avaliação do Ibevar, “se traduziria em uma queda de pelo menos 0,32 ponto percentual do PIB — apenas pelas operações varejistas”. Não estão contabilizados efeitos indiretos sobre fornecedores, logística e consumo.
E se a mudança for gradual?
O estudo também projeta um cenário alternativo: a implantação ao longo de dez anos, o que daria tempo para que empresas e trabalhadores se adaptassem. Nesse caso, o impacto dependeria do ritmo de adoção de tecnologia e do crescimento da produtividade do setor.
Três situações foram modeladas: conservadora (produtividade crescendo 0,25% ao ano), realista (1,25% a.a.) e otimista (2,5% a.a.). Em todas elas, a perda existe — mas diminui com o tempo e com a modernização das operações.
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