Negócios
Evento propõe ao setor calçadista "pensar" e "repensar" práticas ESG
Evento, com cases multissetoriais, propôs ao setor calçadista "pensar" e "repensar" as práticas ESG em suas operações.
Última atualização: 23/10/2025 17:13
Trazendo cases multissetoriais, um evento foi dedicado a "pensar" e "repensar" as práticas ESG (ambiental, social e governança, na tradução da sigla para o português) na cadeia produtiva do calçado brasileiro. Neste contexto ocorreu a 2ª edição do Conexão Origem Sustentável, evento realizado pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) e Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal) nesta quarta-feira (22), no Centro de Eventos Faccat, em Taquara/RS.
Luciana Pereira, diretora de Sourcing & RH da multinacional franco-brasileira de calçados Veja falou sobre a trajetória da empresa como referência em comércio justo e olhar integrado dos parceiros ao longo das principais cadeias produtivas (algodão, borracha nativa, PET-Reciclado e couro orgânico). Com duas décadas de mercado, a marca possui forte apelo de sustentabilidade, produzindo mais de 4 milhões de pares por ano que são comercializados em cerca de 100 países.
Os produtos Veja são desenvolvidos com borracha nativa da Amazônia, por meio da extração sustentável do látex. Desde 2004, segundo Luciana, foram compradas mais de 3,5 mil toneladas do material, pelo qual é pago cinco vezes o valor de mercado (R$ 25 o quilo). Somente na cadeia da borracha, são mais de 2,5 mil famílias beneficiadas nos estados do Acre, Amazonas, Pará e Mato Grosso.
Outro material importante utilizado na fabricação é o algodão orgânico certificado, pelos quais é pago três vezes o valor de mercado (R$ 29 o quilo). Desde 2004, foram compradas mais de 1,8 mil toneladas de algodão, beneficiando 1,3 mil famílias em estados do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e do Peru.
Já o couro utilizado nos cabedais é 100% rastreável, proveniente de rebanhos de fazendas no Rio Grande do Sul e Uruguai. O PET reciclado utilizado em forros é proveniente de 200 catadores de 13 cooperativas. Pelo quilo do produto é pago 2,4 vezes mais o valor de mercado (R$ 12 o quilo). Somente em 2024, foram recicladas mais de 6 milhõesócio-ambiental”, explicou Luciana.
Painel Ambiental
O Painel Ambiental do Conexão Origem Sustentável contou com a participação de Breno Aguiar de Paula, gerente de Sustentabilidade do Grupo Heineken, e Tiago Agne, gerente de Sustentabilidade da SLC Agrícola.
Com 22 marcas e 14 cervejarias no Brasil, a Heineken tem como desafio promover a sustentabilidade do "portão para fora das fábricas", com bares, restaurantes e consumidores, com os quais trabalha a conscientização e o desenvolvimento de produtos retornáveis. Já internamente, a fabricante de bebidas tem metas arrojadas como, até 2040 zerar a emissão de carbono nos seus processos produtivos.
No que diz respeito à circularidade, a Heineken busca ter 43% dos volumes vendidos em formato retornável até 2030. No uso de recursos naturais, a marca quer reduzir o uso médio de água para 2,6 hectolitros por hectolitro de cerveja produzida até 2030. Os ingredientes utilizados (lúpulo e cevada), por sua vez, devem ser todos de origem sustentável em cinco anos.
Maior empresa produtora de grãos e fibras do Brasil, a SLC Agrícola trabalha a sustentabilidade como parte do seu negócio, já que precisa de solo de qualidade para o sucesso de seus produtos. Hoje, segundo Agne, 60,8% dos resíduos gerados pelas fazendas SLC são utilizados como biocomposto para o solo, número que deve crescer nos próximos anos.
Quanto ao uso de água, Agne contou que 98% do recurso utilizado é da chuva e que a pequena parte hídrica usada para irrigação vem diminuindo. Em 2024, na relação com 2023, o uso caiu 62%. Para os próximos anos, a meta é reduzir em 80% a água utilizada. “Também utilizamos a tecnologia para a sustentabilidade. Na SLC as duas coisas andam juntas. Por exemplo, investimos em máquinas agrícolas que possuem um censor e que aplicam herbicidas apenas nos locais onde existem plantas daninhas, diminuindo o uso desses produtos e, consequentemente, de água”, concluiu.
Painel Social
No painel Social, participaram Deise Branco, gerente de Gente e Gestão da Klabin; Mariana Riskoski Emmerich, especialista em Sustentabilidade da Lunelli; e Kelly Roselaine Valadares, coordenadora estadual dos Projetos ESG do Sebrae RS.
Com 23 fábricas, 22 no Brasil e uma na Argentina, a Klabin é líder nacional na produção de papel-cartão, embalagens de papelão ondulado e sacos industriais, também oferecendo ao mercado a melhor solução em celuloses de fibras curtas e longas. Segundo Deise, a empresa sempre teve um olhar para o pilar social do ESG, mas foi a partir da pandemia de Covid, em 2019, que passou a ter ainda mais cuidado com as pessoas. Desde lá foram mais de 80 mil consultas psicológicas. “Temos profissionais especializados para atendimento 24 horas por dia e 7 dias por semana”, contou. Outra ponta do trabalho é a capacitação de líderes para que saibam acolher as pessoas com dificuldades. “Não basta escutar, é preciso acolher”, acrescentou.
A Lunelli, empresa de malhas catarinense que produz mais de 26 milhões de peças por ano, aportou, em 2024, mais de R$ 1,1 milhão em projetos sociais que beneficiaram cerca de 10 mil pessoas. “Temos um papel social muito forte já que estamos presentes em boa parte da vida das pessoas que trabalham na empresa. Desta forma, trabalhamos o cuidado e o afeto com os nossos funcionários”, contou. Entre os projetos realizados, Mariana citou a previdência privada, que dá mais tranquilidade para os colaboradores.
Frisando a importância do trabalho social na competitividade das empresas, Kelly ressaltou que “pessoas felizes entregam resultados melhores”. Tendo escutado, em rodas de conversas, diversas “dores” nessa área, a coordenadora de ESG do Sebrae RS destacou, para os empresários, que o trabalho deve ser mais do que uma “troca financeira”.
Newsletter: Cadastre seu e-mail para receber as novidades do Exclusivo
Painel Governança
Um dos paineis do evento tratou sobre a última letra da ESG, governança. Participaram Mateus Grings, Facilitador de Adoção de Sustentabilidade do grupo alemão SAP; e Luciane Sartori, gerente de Saúde, Segurança, Meio Ambiente e ESG da Randoncorp.
Ressaltando que nenhuma empresa cresce no mercado atual sem práticas sustentáveis, Luciane falou da importância da integração de todas as áreas do grupo no fomento das práticas ESG. “Prova que estamos no caminho certo com essa integração é que as práticas de sustentabilidade estão no discurso do nosso presidente Daniel Randon”, destacou. A executiva ressaltou, também, o papel da sustentabilidade na competitividade da empresa. “Hoje, não conseguimos nem passar uma cotação a um cliente europeu se não apresentarmos um impacto de emissão de carbono”, finalizou.
Grings, por sua vez, falou sobre a importância do apoio dos clientes na implantação de soluções de sustentabilidade. Trabalhando com tecnologia e, agora, mais fortemente com a implantação de ferramentas de Inteligência Artificial para a gestão das empresas, a SAP quer ser exemplo para os seus clientes na implantação acelerada de processos de ESG. “O desafio é qualificar os dados para transformá-los em informações relevantes para a IA. Ajudamos os clientes nesse caminho”, disse.
Allan Scartezini Foster, coordenador de Carbono e Circularidade da Natura fez a última palestra do evento. Ele destacou que, em 2024, foram recuperadas mais de mil toneladas de materiais pós-consumo pela empresa. Foster frisou que, hoje, "ser sustentável não basta". “É preciso criar condições para a regeneração da vida e nós temos essa cultura muito presente na Natura”, disse. Segundo ele, diante do desafio, a companhia vem trabalhando em três frentes estratégicas: inovação em produtos, estruturando soluções com novos materiais e formatos de refis para a ampliação da circularidade; preparação de cadeias de valor, garantindo que fornecedores e processos estejam prontos para reincorporar materiais reciclados na cadeia de produção; e programas de logística reversa, mobilizando e engajando toda a rede de consumidores na coleta e no retorno de embalagens para reuso e reciclagem.
Certificações
A programação do Conexão Origem Sustentável contou com a certificação de quatro empresas no programa Origem Sustentável – criada pela Assintecal em parceria com a Abicalçados em 2013,, é a única certificação no mundo voltada à cadeia produtiva do calçado. Na oportunidade, foram certificadas a Grupo S2 (Diamante), a Ponto a Ponto Bordados (Prata), a Mared Têxtil (Prata) e a Gelissica (Bronze).
O Origem Sustentável é baseado nas melhores práticas internacionais de sustentabilidade, seguindo a diretriz de 104 indicadores distribuídos em cinco dimensões: econômica, ambiental, social, cultural e gestão da sustentabilidade. As categorias certificadas são: Diamante (+80% dos indicadores alcançados); Ouro (+60%); Prata (+40%) e Bronze (+20%).
(*) Com informações da Abicalçados.
Faça parte da comunidade do Exclusivo no WhatsApp