Inflação e desglobalização

09.05.2022

Quem acompanha o noticiário diariamente tem notado que o mundo vive hoje uma onda inflacionária global.

Tais pressões inflacionárias decorrem tanto de uma demanda reprimida, devido aos tempos de confinamento durante a pandemia, como da alta de custos, devido às crises nas cadeias produtivas globais e ao encarecimento das commodities, especialmente após a deflagração da invasão russa na Ucrânia.

Diante deste cenário, bancos centrais de todo o mundo têm elevado suas taxas básicas de juros com o intuito de abortar ou ao menos arrefecer a aceleração dos preços e seus impactos na perda do poder de compra das famílias.

Todavia, há outro problema maior, e não conjuntural, sobre a questão inflacionária para a qual devemos nos atentar: o movimento de desglobalização e o ressurgimento de um sentimento nacionalista mundo afora.

A questão é que, a partir dos anos oitenta, com os governos de Ronald Reagan nos EUA e de Margaret Thatcher na Inglaterra, os países mergulharam em um processo de globalização e passaram a preconizá-lo como panaceia para os demais países de sua zona de influência.

Tal processo, que encontra raízes na teoria das vantagens comparativas de David Ricardo (economista do século XVIII), preconizava a abertura das fronteiras nacionais ao comércio exterior, bem como ao livre fluxo de capitais.

A ideia era que as empresas pudessem se estabelecer em países onde os fatores de produção de que precisassem (mão de obra e matérias-primas) fossem mais baratos, levando ao surgimento das chamadas empresas transnacionais.

Assim, as nações, ao invés de produzirem bens em que eram nitidamente ineficientes, passariam a importá-los a preços mais baixos, priorizando assim a produção daquilo em que eram realmente competitivas.

Isto resultou em maior especialização, produtividade e barateamento de preços (e, portanto, em menor inflação), contudo fez também com que os países ficassem mais dependentes de seus pares internacionais.

Todavia, com o surgimento da pandemia, e depois com a guerra da Ucrânia, o lado negativo desta estratégia ficou claro, como na dependência da Europa do gás russo ou na dependência dos norte-americanos dos semicondutores chineses.

Tal fenômeno, verificou-se também no Brasil, como na nossa dependência de fertilizantes russos ou mesmo na falta de máscaras faciais no momento mais agudo da pandemia.

Diante deste cenário, vem surgindo, mundo afora, um sentimento de que esta dependência deve ser reduzida e que os países devem voltar a investir na produção própria de bens para assegurar sua sobrevivência.

Contudo, países (assim como nós seres humanos) são diferentes entre si e nem todos tem o mesmo grau de expertise para produzir tudo aquilo de que precisam com eficiência.

E esta menor eficiência nos processos produtivos resulta necessariamente em maiores custos e, por conseguinte, em maiores preços, o que conduzirá as economias a conviverem com níveis mais altos de inflação do que tivemos nos últimos 30 anos.

Dito de outra forma, o avanço da desglobalização fará com que doravante tenhamos que conviver com um cenário de inflação e juros mais altos no mundo.

Orlando Assunção Fernandes

Orlando Assunção Fernandes é economista, mestre em Economia Política e doutor em Teoria Econômica pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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