O emprego à espera de uma vacina

10.05.2021

No último dia 30 de abril, o IBGE divulgou sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) com os dados consolidados para o desemprego no Brasil. Apesar de um início de ano mais promissor para alguns setores que voltaram a criar novas vagas de trabalho (como o setor calçadista), os dados do emprego no Brasil ainda se mostram assaz desafiadores.

Segundo a pesquisa, o Brasil contava com 176,7 milhões de pessoas em idade de trabalho, das quais 76,4 milhões estavam fora da força de trabalho, número 11,6 milhões maior do que em junho de 2020.

Das 100,3 milhões de pessoas restantes, 85,9 milhões estavam ocupadas (menos 7,4 milhões do que em junho passado) e as demais estavam à procura de trabalho, o que corresponde a uma taxa de 14,4% de desemprego.

Todavia, ao somarmos o número de pessoas desempregadas (14,4 milhões) com os 6,9 milhões de subocupados por insuficiência de horas trabalhadas (o chamado bico) e as 5,9 milhões de pessoas em desalento (isto é, que de tanto tentar, e não conseguir, acabaram desistindo de procurar colocação), percebemos que o buraco é bem mais fundo, totalizando 27,3 milhões de pessoas, ou seja, quase o dobro do número oficial.

Outro número disponível na PNAD revela, de forma também contundente, a difícil situação do trabalho no Brasil após mais de um ano de pandemia.

Se olharmos para o número de trabalhadores ocupados, porém sem carteira assinada (sejam do setor privado, do setor público ou os trabalhadores domésticos), mais os que trabalham por conta própria sem CNPJ, temos 33,3 milhões de pessoas ocupadas, porém vivendo na informalidade.

O número revela que parte significativa dos trabalhadores que aparecem como ocupados estão, na verdade, em atividades cujos rendimentos são, em geral, baixos e não contam com a proteção de direitos garantidos pela CLT, revelando a forte precarização das relações trabalho que vem tomando conta do cenário laboral brasileiro.

Como se pode depreender a partir de um olhar mais detido sobre os dados da PNAD, apesar de sinais promissores em alguns setores, estamos longe de retomar o patamar pré-pandemia.

Somente após o arrefecimento significativo do número de contágios e mortes por Covid-19, o que dependerá da aceleração do ritmo de vacinação, é que poderemos ver uma sensível recuperação na abertura de novas vagas.

Ainda assim, ao contrário do que alguns possam imaginar, os números do desemprego não cairão de forma imediata, pois muitos daqueles que hoje estão fora do mercado de trabalho, diante de um cenário mais favorável, voltarão a procurar uma colocação, ampliando o número dos que estarão a procura por uma vaga, o que impedirá que a taxa de desemprego caia significativamente em curto espaço de tempo.

Orlando Assunção Fernandes

Orlando Assunção Fernandes é economista, mestre em Economia Política e doutor em Teoria Econômica pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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