Impactos da pandemia no comércio exterior

08.09.2020

Em relatório divulgado no mês passado a OMC (Organização Mundial do Comércio) estimou que, devido aos efeitos econômicos do Covid-19, a corrente de comércio global deverá apresentar, em 2020, uma forte retração, cuja queda esperada deve se situar no intervalo de 13% a 32%.

Este intervalo tão amplo na projeção, de acordo com a entidade, deve-se as dificuldades para se realizar previsões diante do caráter incerto dos efeitos da pandemia. Todavia, mesmo que fique mais próxima do piso da projeção, tal queda será ainda mais intensa do que a observada durante a crise do subprime em 2008/09.

Apesar da singularidade do evento responsável por números tão adversos (o coronavírus), a preocupação reside no fato de que o mundo já vinha apresentando, mesmo antes da pandemia, sinais de arrefecimento no ritmo do comércio exterior, devido à desaceleração econômica global, aos receios causados pelo Brexit e também à exacerbação do protecionismo inaugurado pelas tensões comerciais entre China e EUA.

Para exemplificar, o ritmo de expansão do comércio internacional, que em 2017 havia sido de 4,6%, caiu para 3,0% em 2018 e, de acordo com o relatório divulgado pela OMC, em 2019 apresentou contração de 0,1%.

Segundo o mesmo relatório, as regiões mais afetadas pelo declínio das exportações neste ano serão a América do Norte, com uma contração que pode chegar a 40,9%, e a Ásia com recuo de até 36,2%. Na América Latina, o recuo previsto deverá se situar entre 12,9% e 32,8%.

Para a OMC os setores que serão mais impactados serão aqueles que apresentam cadeias produtivas mais sofisticadas, tais como o setor automobilístico e o de eletrônicos. O documento, embora ressalte as incertezas presentes nas estimativas, destaca que a recuperação do fluxo de comércio global deverá ocorrer já em 2021, com uma expansão entre 21% e 24%.

Diante deste cenário, e dado o desejo do governo brasileiro (ao menos no discurso das autoridades econômicas) de abrir mais suas fronteiras e ser um player relevante no comércio internacional, tal contexto pode se transformar em oportunidade.

Todavia, para se beneficiar deste cenário, será necessário superar problemas endêmicos, entre os quais podemos mencionar a elevada carga tributária, a baixa produtividade da mão de obra e a carência de investimentos em setores chaves, entre os quais podemos citar os de energia, transporte, portos e aeroportos.

O certo é que, mesmo diante de um quadro mais otimista para 2021, as incertezas sobre a economia internacional ainda se fazem muito presentes.

Questões como as de quando haverá uma vacina confiável para a pandemia, a escalada das rivalidades entre as duas superpotências e as consequências, sobre as contas públicas e sobre a trajetória do endividamento, dos gastos executados no combate à pandemia, merecerão atenção e deverão ser acompanhados de perto, pois podem vir a afetar a dinâmica do comércio exterior brasileiro.

Orlando Assunção Fernandes

Orlando Assunção Fernandes é economista, mestre em Economia Política e doutor em Teoria Econômica pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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