Incerteza poltica e letargia econmica

11.05.2018

A o final do ano passado, boa parte dos analistas de mercado acreditava que a economia brasileira começaria o ano em ritmo mais acelerado. As expectativas cresceram ainda mais após a divulgação dos dados do PIB de 2017, cujos resultados haviam trazido de volta a esperança de que o Brasil encontrara novamente o caminho do crescimento.
De fato, a confiança dos agentes econômicos estava sendo retomada e o País havia saído de uma recessão de dois anos.

Com a inflação em forte queda, a taxa Selic em seu menor patamar e a bolsa renovando suas máximas históricas, muitos economistas esperavam uma significativa retomada do crescimento em 2018, cujas projeções no começo do ano giravam entre 3% e 3,5% de crescimento.

Todavia, a safra de indicadores econômicos divulgada até aqui revela um desempenho decepcionante da economia brasileira, indicando que tais expectativas talvez tenham sido auspiciosas demais.

A fraqueza da economia tem ficado evidente em todos os setores (varejo, serviços e indústria), bem como nos números do desemprego que seguem em elevação.

A taxa de desemprego, divulgada pelo IBGE em abril, aumentou para 13,1%, totalizando agora 13,7 milhões de pessoas desocupadas no País. Ademais, a mesma pesquisa mostrou também uma queda no número de trabalhadores com carteira assinada, o que, além de evidenciar a precarização das relações de trabalho, dificulta a obtenção de crédito pelas famílias, inibindo uma retomada mais robusta do consumo.

A própria inflação persistentemente baixa, outrora motivo de regozijo, agora já começa a causar também apreensão, pois revela a letargia da recuperação econômica.
O fato é que a confiança na economia brasileira arrefeceu nestes últimos meses, e tal reversão parece estar ligada à percepção de que muito ainda precisa ser feito no âmbito econômico (tais como as reformas tributária e previdenciária), mas que não será um governo, em seu apagar das luzes, que irá fazê-lo.

Destarte, o foco passa a ser então a eleição presidencial de outubro, a qual, neste momento, está totalmente indefinida. A previsão de termos, como em 1989, uma eleição pulverizada (com muitos candidatos), e com um provável recorde de abstenções e votos brancos e nulos, associa ainda mais incerteza ao cenário econômico.

Assim, com boa parte da sociedade não acreditando mais no andamento da agenda de reformas pelo atual governo, e sem ter clareza sobre quem liderará o próximo, o sentimento de indefinição acaba por tomar conta dos agentes econômicos, seja de consumidores ou de empresários, resultando em um processo de postergação das decisões de consumo e de investimento, com reflexo no ritmo de atividade econômica.
Acompanhar os movimentos do xadrez eleitoral será, portanto, nos próximos meses, assaz importante, pois o desempenho da economia estará indissociável da política.

Orlando Assuno Fernandes

Orlando Assuno Fernandes economista, mestre em Economia Poltica e doutor em Teoria Econmica pelo Instituto de Economia da Unicamp. Professor e chefe do Departamento de Economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de So Paulo.

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