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29/05/2017 - Luís Carlos Facury
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FIMEC refletiu na prática o que ensina a teoria

Ainda no auge de uma prolongada crise não devidamente dimensionada, mas já bastante lamentada por suas consequências, a última edição do Jornal Exclusivo sobre a Fimec é toda ela um autêntico relato de como um ramo de atividade produtiva deve se comportar em situações econômicas reconhecidamente adversas.

A partir de uma sequência de reportagens e comentários sobre providências importantes adotadas principalmente pelos produtores gaúchos de calçados e da correspondente cadeia produtiva, o jornal justifica sua posição otimista, a ponto de acreditar no início de um novo ciclo econômico para o setor, um ciclo de prosperidade, com vislumbre de “virtuoso”. De tal sorte que, ao classificar a última Fimec como “a melhor dos últimos tempos”, o Exclusivo fez por demonstrar a razão dos significativos volumes de negócios, da presença extraordinária de importadores, bem como a participação de clientes de várias partes do País.

Ficou ali demonstrado que os empresários gaúchos investiram fortemente no aumento da produtividade, mediante a utilização do que a tecnologia de ponta representa de solução para o aprimoramento da qualidade e redução de custos do produto. Em consequência, os sapatos produzidos no Vale do Sinos, masculino e feminino, tornaram-se mais competitivos e mais procurados. E mais animadoras as perspectivas para todo ano.

Na verdade, essa reação que vem do Sul não chega a surpreender, quando se leva em conta que ali o empreendedorismo faz escola, é inato. Reconhecidamente, a região se coloca em posição de vanguarda na atividade calçadista, pela capacidade produtiva de suas unidades fabris, pelo seu avanço tecnológico, pelo pioneirismo de atitudes e pela própria consciência de seu valor.

Além do que o complexo calçadista gaúcho tem contado, desde o início de sua formação, com o apoio expressivo e racional do governo do Estado, consciente de sua importância econômica e social no rol das indústrias gaúchas. Atitude que, via de regra, não tem contemplado outros tradicionais centros produtores de calçados, do Estado de São Paulo, principalmente, onde o setor sempre foi tratado como atividade de secundária importância no cenário manufatureiro paulista.

Voltando ao assunto da feira, – seu sucesso e as lições que dela se extraem – merece comentário especial, vale reiterar, a atuação positiva do Exclusivo na sua condição de jornal posto a serviço dos interesses do complexo calçadista.

Desde os seus primórdios e no decorrer de seus quase 50 anos de existência, esse jornal de tal sorte tem se identificado com o setor calçadista que dele se tornou parte integrante e necessária. E é o que bem demonstra, ainda agora, o sentido responsável das informações transmitidas, o tratamento contido na sua linha editorial e a reiterada proposta de apoio e incentivo às múltiplas atividades inerentes à produção, distribuição e comercialização de calçados.

Tanto mais que, no conjunto de uma cobertura excepcional dedicada ao evento, o Exclusivo deixa subentendida a mensagem segundo a qual a Fimec refletiu na prática o que ensina a teoria, ao enfatizar as diversas ações voltadas para recuperação, fortalecimento e avanço tecnológico da economia calçadista.

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17/03/2017 - Luís Carlos Facury
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Projeto anticrise em Franca

Em uma atitude que se revela por aqui politicamente inédita, o prefeito de Franca, Gilson Ribeiro, chamou para si a responsabilidade de reunir esforços e formular ações destinadas a enfrentar a crise que está provocando a desconstrução gradativa do núcleo calçadista da cidade. Assim agindo, o prefeito incorpora a ideia mundialmente aceita de que iniciativas no campo do desenvolvimento devam ser objeto de indução por parte do poder público, desde que contemplem uma rede de articulações que envolvam o poder público (municipal, estadual e federal), o legislativo, a iniciativa privada, instituições de ensino, entidades de classe e demais representações de expressão.

Os primeiros movimentos práticos para a viabilização de um plano de desenvolvimento que beneficie especialmente o setor calçadista decorrem do projeto, de iniciativa do Executivo municipal, instituindo a Coordenadoria de Assuntos Estratégicos e Políticas Públicas, já encaminhado para aprovação do Legislativo. Em sua fase de elaboração, bem como o acompanhamento e implementação, esse projeto segue a orientação de um ex-consultor legislativo do Senado da República, por duas décadas, e atual consultor especial da Unesco: o francano Elias de Oliveira Motta, em atividades na administração municipal desde meados de janeiro. Para tanto, ele vem se reunindo com pessoas capazes de opinar com fundamento, notadamente sobre a realidade calçadista e da respectiva cadeia produtiva de Franca, a fim de compor um quadro que inclui diagnósticos, análises e propostas, além da verificação de causas predominantes e dos efeitos perversos da prolongada crise econômica que tanto penaliza o setor.

Pois a iniciativa assumida pelo prefeito, inquestionavelmente correta, é de muita coragem, por convocar, sem estar pedindo favores, a adesão objetiva dos governos do Estado e da União. Sem deixar cobrar deles a parcela de responsabilidade pela situação em que se encontra a atividade produtiva calçadista, não só demonstrada pela grave situação econômica, mas ainda pela penúria social daí decorrente.

Perdas

Perde o Estado, sobretudo pela queda na arrecadação do ICMS, perde também a União, que tem dado, ademais, reiteradas provas de desconhecimento e menosprezo quanto à importância econômica e social dos ramos industriais de média e baixa tecnologia, intensivos na ocupação de mão de obra. E perde o município, que tem no calçado seu grande centro dinâmico produtor de riqueza, gerador de emprego e maior propulsor do desenvolvimento em âmbito regional.

Em tais condições, o prefeito deverá mesmo elencar uma série de reivindicações junto aos governos do Estado e da União, naquilo em que esses poderes estejam em situação de atender e, aliás, obrigatoriamente atender. No entanto, em razão sobretudo da natureza da atividade produtiva dominante em Franca – e da de outras visualizadas como alternativas viáveis – imprescindível se torna contar com o esforço e a integração dos governos estadual e federal, uma vez demonstrada a validade, a importância e o alcance contidos nessa coordenadoria. Tanto mais que, por princípio, ela se alinha à ideia hoje mundialmente aceita segundo a qual “o desenvolvimento deva ser objeto de indução por parte do poder público, e que isto seja realizado por meio de uma rede de articulações que envolvem poder público (estadual e federal), o Legislativo local, a iniciativa privada, as universidades, entidades de classe e demais representações de expressão”.

As ações estratégicas preconizadas no âmbito da atuação da coordenadoria se destinam a avaliar novas alternativas de geração de riqueza neste município, incluindo aquelas já conhecidas e não devidamente exploradas, bem como as potencialmente viáveis, em áreas correspondentes à indústria, à agropecuária, ao comércio e, ainda, aos estudos da inovação tecnológica.

Por outra parte, compete à coordenadoria instituir um serviço permanente de pesquisa, diagnósticos e projetos referentes às principais atividades produtivas do município, no intuito de oferecer suporte à implantação de uma política de crescimento sustentado e , ao mesmo tempo, credenciar-se para atrair a participação efetiva dos governos estadual e federal aos nossos planos desenvolvimentistas.

Para justificar a necessidade premente da criação da Coordenadoria de Assuntos Estratégicos e Políticas Públicas, bastaria ressaltar o quadro crítico que assola a atividade calçadista e toda cadeia produtiva, em vias de se agravar inapelavelmente, sem perspectivas de futuro e carente demais de uma atuação firme, decidida e racional da parte poder publico, seja ele municipal, estadual ou federal. Por fim, o que se pretende é oferecer a Franca uma oportunidade plausível para o reencontro com o crescimento econômico sustentado e tudo o que isso representa em termos de riqueza compartilhada e elevação dos níveis de bem-estar social.

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09/02/2017 - Luís Carlos Facury
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Novo prefeito de Franca promete dedicação especial ao polo calçadista

E m sua primeira manifestação pública após a eleição, o novo prefeito de Franca, Gilson de Souza (DEM), deixou transparecer a preocupação com a retomada do crescimento econômico no município, dedicando atenção especial ao polo calçadista e a toda cadeia produtiva nele concentrada.
Diante do atual clima de incertezas ainda vigente no cerne da principal atividade produtiva da cidade, antecipou sua intenção de coordenar um conjunto de ações com o propósito de encontrar saídas viáveis para o setor, numa reação pautada pela objetividade e pelo esforço conjugado de segmentos da sociedade capazes de lutar pela recuperação plena do parque industrial francano.
Antes de avançar em considerações sobre o seu compromisso com a revitalização do núcleo calçadista, Gilson de Souza ressaltou que o sucesso dessa empreitada é de fundamental importância na implementação do projeto de crescimento econômico idealizado para Franca, num modelo que prevê novas alternativas de geração de riquezas, com base em fatores produtivos disponíveis na região ainda não racionalmente explorados.
Reconhecimento
“Temos plena consciência das dificuldades que iremos encontrar para fazer com que Franca volte a ser a capital do calçado masculino do País, porém, redobraremos esforços para vencer esse desafio. Porque reconhecemos a grande importância do setor para a vida econômica e social da cidade, seja como gerador de riquezas e de ocupação de mão de obra, seja ainda como inestimável fonte de receita para o município, decorrente da participação do ICMS”, detalhou o novo prefeito.
Sintonia
Essa sua posição, de fato, faz sentido, pois ele demonstra estar atualizado com a moderna dinâmica administrativa, segundo a qual o desenvolvimento, em seus pontos cruciais, deve mesmo ser objeto da indução por parte do poder público, no caso o executivo municipal, em sintonia com o Poder Legislativo, com a iniciativa privada, com expertises do ramo, de maneira a sensibilizar – o que é muito importante – as áreas correspondentes dos governos federal e estadual, e até mesmo especialistas em atividade nas universidades locais.
Embora ainda no campo das proposições, o novo prefeito já abre questão também para o acesso à inovação tecnológica e consequente elevação do nível de produtividade, além de ressaltar a necessidade de atração de novos investimentos. Faz menção, ademais, a uma dinâmica adequada no processo de comercialização do produto, tanto para respaldar a reconquista expressiva do mercado externo, como para enfrentar vitoriosamente a forte concorrência interna.
Experiência
“Temos de recorrer, enfim, à experiência adquirida ao longo de muitos anos, nos processos de produção e comercialização do produto; temos de bem utilizar a estrutura da cadeia produtiva aqui formada e a nossa vantagem no potencial logístico; temos de aproveitar a qualificação da mão de obra aqui disponível e fazer por onde revigorar a criatividade, prevalecer o decantado espírito empreendedor do calçadista francano. Assim agindo, não estamos dando asas à fantasia, às ilusões. É essa a realidade que se descortina diante de nós. Sim, nós podemos, basta seguir o caminho certo. Tanto mais que outros polos auspiciosos estão surgindo e se transformando em admirável realidade, construída com esforço, inteligência e determinação”, concluiu o prefeito Gilson de Souza.
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14/11/2016 - Luís Carlos Facury
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Declínio em Franca, expansão no Ceará (parte 2)

Na busca de elevação dos índices de produtividade, Ceará e Bahia têm disponibilizado recursos, via BNDES e de outros órgãos, para atraírem também empresas que atuam na cadeia produtiva, caso de curtumes, indústrias de máquinas e equipamentos, fornecedores, enfim, de insumos e componentes. A ideia dessa concentração produtiva está na raiz de um projeto maior, de colocar aqueles dois centros calçadistas na linha de frente, em nível nacional, tanto em evolução tecnológica, quanto no grau de competitividade, com vistas ao mercado externo, e, por consequência, ao mercado doméstico.
Importante destacar, além do mais, que essa planificação contempla o apoio logístico na alçada da cadeia produtiva, visando a redução, o quanto possível, do ônus representado pela aquisição de matérias-primas e componentes procedentes do Sul e do Sudeste.
Todo esse círculo virtuoso tem sido ativado mediante um conjunto de favorecimentos fiscais da parte de órgãos dos governos estadual e federal. Conta, ademais, com valioso apoio da Sudene, pois esse esforço de expansão está inserido na meta nacional de atender efetivamente as regiões ainda menos desenvolvidas do País. O que, no caso presente, é perfeitamente viável, tendo em vista que a atividade calçadista, a par da forte contribuição para a expansão econômica, é fator de extraordinária relevância na geração de empregos, com influência direta e imediata nos indicadores do bem-estar social.
Em contrapartida, em Franca, a par da luta carente de bons resultados pela manutenção da atividade calçadista, novos obstáculos não faltam, para se somarem aos transtornos desestabilizadores. Como agora as equivocadas posições contra o necessário processo de terceirização adotadas veementemente pelo corporativismo sindical radicado na cidade. Mesmo diante da evidência de que tal comportamento pode agravar mais ainda a complicada situação da indústria calçadista francana, tornando-a cada vez menos competitiva, em termos de mercado interno e externo. E com reflexos diretos na escalada do desemprego.
Por outro lado, em demonstração de autoridade, determinação e racionalidade, cearenses e baianos estão encontrando até mesmo formas de atenuar os efeitos danosos do chamado Custo Brasil. Porém em Franca, tal reivindicação nem campo teve para prosperar. Tanto que não se conhece qualquer medida concreta por parte do Governo do Estado, no sentido de promover tentativas como as que estão vitoriosamente em curso no Nordeste. Por essas e outras, para lá desse descaso de que são vítimas, assistiria razão aos fabricantes da cidade se fizessem ecoar, em manifestos destemidos, movimentos reivindicatórios contra tudo isso que parece assumir contornos de verdadeira conspiração contra o outrora avançado eixo calçadista do País.
E a menos que haja uma reação ainda não devidamente cogitada, vitaminada por uma inequívoca expressão de dignidade, de bravura e de consciência do próprio valor, a Franca dos calçados continuará percorrendo, inexoravelmente, a senda da retração e candidatando-se a integrar, infelizmente e não vai demorar muito, o rol dos decadentes complexos calçadistas espalhados por este mundo afora.
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25/10/2016 - Luís Carlos Facury
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Declínio em Franca contrasta com a expansão no Ceará e na Bahia (parte 1)

Seriamente preocupado com os efeitos colaterais para o setor calçadista em sua região, logo após a instituição do Euro, um empresário espanhol (que se fazia porta-voz de outros dois companheiros) mencionava então como principais fatores negativos a nova situação cambial e a necessidade da utilização de mão de obra a custo mais baixo, originária, em boa parte, do Norte da África. E, demonstrando conhecimento, em amplitude internacional, que incluía atividade industrial de Franca, dirigindo a mim, preconizou em tom de advertência:
– Tenga cuidado (Franca), porque de lo contrario se corre el riesgo de enfrentarse a los problemas que enfrentamos hoy.
Esse encontro ocorreu há uns 15 anos, em uma tradicional região produtora de calçados masculinos e femininos da Espanha, já às voltas com um período de evidente instabilidade econômica. Dado que o setor calçadista em geral, pela própria natureza de sua atividade, padece de problemas similares, seja lá onde for, essa predição do espanhol parece materializar-se assustadoramente na cidade que já chegou a ser decantada como a capital dos sapatos masculinos. E que nos dias de hoje assiste, entre inerme e assustada, não propriamente a um ciclo negativo, mas, o que é pior, à sinalização indicativa de um futuro incerto e inseguro para o seu parque calçadista, com reflexos em toda cadeia produtiva do qual é o eixo dinâmico.
E com o agravante de estar atirada à própria sorte, ao desamparo de setores competentes nas esferas estadual e federal. Pois assim, sem voz ativa e influente, não recebe mais que acenos de projetos estratégicos “vindos de cima”, que nunca se viabilizam, porque soem ser inadequados, inócuos e destituídos de sentido prático.
Enquanto as coisas caminham assim, num já reconhecido centro calçadista do interior do Estado dito o mais rico e próspero da União, – mas que mantém solene e reiterada atitude de desprezo a esse setor de média tecnologia e intenso em ocupação de mão de obra –, dois Estados do Nordeste (Ceará e Bahia) despontam como protagonistas de novos e hoje consolidados polos produtores de sapatos de variadas linhas, destinados ao mercado externo e também ao mercado interno.
O sucesso na implantação dos dois referidos núcleos calçadistas – com destaque para o do Ceará – não se deve apenas à disponibilidade mais barata da mão de obra, mas acima de tudo à racionalidade de um planejamento bem traçado e executado, com o vigoroso amparo, na medida correta, dos respectivos governos estaduais, dentro de um processo contínuo e sempre aprimorado que teve início no final da década de 1990.
Já no alvorecer do milênio seguinte, teve início um ciclo de transferências de importantes indústrias do Sul e Sudoeste do País, as quais, estimuladas pelas propostas governamentais e pela disponibilidade de mão de obra abundante, factível de adequado treinamento, foram essas indústrias migrantes se juntando expressivamente às pequenas e microempresas preexistentes e já em fase de expansão.
O mercado externo figurou como meta prioritária das referidas grandes empresas. Ademais de outros atrativos, a posição geográfica muito contribuiu para a viabilização de tal projeto, devido à menor distância em relação aos Estados Unidos, num período de certa retração nas suas importações, de tal sorte que os preços competitivos passaram a ser um fator importante na escolha dos fornecedores. Um fato, aliás, registrado em boa análise por estudiosos nordestinos.
Não é sem razão, pois, que o Ceará desbancou Franca e São Paulo da condição de segundo maior exportador de calçados do País, cuja liderança cabe imbatível, ao Estado gaúcho, com estrutura calçadista firme, não obstante o cenário de grandes dificuldades econômicas que o Brasil atravessa.
Mas cabe enfatizar que o sucesso do Ceará e da Bahia foi alcançado por méritos. Um exemplo de fazer inveja e que deveria pôr em brios as autoridades governamentais de São Paulo, caso elas se importassem deveras com os destinos do ramo calçadista majoritariamente concentrado no interior. Com efeito, os dois Estados nordestinos foram e estão sendo diligentes ainda ao atraírem mão de obra qualificada de regiões mais evoluídas tecnicamente, enquanto desenvolvem parcerias bem sucedidas com instituições competentes, como forma de elevar o nível de capacitação profissional, por via de cursos especializados em variadas etapas da produção.
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14/10/2016 - Luís Carlos Facury
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O sapato chinês do Temer

A publicidade contendo subentendida crítica ao presidente Temer por ter adquirido um par de sapato na China configura um equívoco tão primário que só encontra justificativa no desconhecimento dos problemas inerentes à produção e comercialização externa do calçado brasileiro. Difícil, portanto, creditar a informação a “fabricantes indignados” sobre o que se entendeu simbolizar como um ato de prestígio do presidente Temer a um forte concorrente do nosso sapato.
Em artigos anteriores, procurei demonstrar que diversos setores da economia chinesa já estão convivendo com resultados animadores decorrentes da implantação de uma bem concebida política industrial, que privilegiou investimentos maciços na infraestrutura de promissores segmentos produtivos, com especial atenção àqueles de intensiva ocupação de mão de obra. A isso seguiu-se um programa de estímulos e suportes de variada ordem, com previsão de parcerias entre o governo e a iniciativa privada, incorporando previsões de forte estímulo ao crescimento do consumo interno. E com o respaldo de um sistema cambial administrado em benefício dos setores de exportação. No conjunto dessas ações, fica evidente que a China pretende mostrar ao mundo que está apta para cumprir o Protocolo de Acesso à OMC, credenciando o país a ingressar no sistema multilateral de comércio, já livre de tantas barreiras protecionistas às quais estará sujeita até o fim deste ano. Fato que já deveria ser objeto de atenção por parte dos condutores da economia brasileira.
Voltando ao assunto à hipotética indignação de setores calçadistas a propósito da compra do sapato de um forte competidor, cabe demonstrar que o alvo correto da insatisfação deveria ser o próprio governo brasileiro. Um governo, ou melhor uma sucessão de governos, cujos titulares da área econômica se mostraram efetivamente desinteressados em formular e implementar a necessária política industrial destinada a promover e assegurar a expansão de tantos ramos da atividade produtiva neste País. O que representaria, ademais, o instrumento adequado para combater, com poder e eficácia, essa somatória de desacertos, esse arco constringente que vai da instabilidade cambial aos estrangulamentos recessivos do chamado “Custo Brasil”. Causa e efeito de tantos transtornos, dentre os quais a desarticulação de não poucas e importantes empresas calçadistas que chegaram a apostar alto na conquista do mercado externo.
Face a isso, fica evidente a contradição entre a inércia governamental diante dos persistentes embaraços no domínio das exportações e os reiterados acenos oficiais embutidos na defesa do incremento das exportações de produtos manufaturados. Não dá mesmo para entender.
Pelo visto, a iniciativa de uma discussão ampla e objetiva com vistas a medidas eficazes e urgentes para reanimar o setor calçadista, a começar pela expansão do processo de exportação, deve caber necessariamente às lideranças que representam os principais centros de produção do Brazil, em consonância com a diretriz central da Abicalçados. Não dá para esperar mais. Não podemos correr o risco de a simples compra de um par de sapato chinês experimentar um efeito multiplicador de milhões, não lá, mas aqui no Brasil!
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29/08/2016 - Luís Carlos Facury
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Os pontos de estrangulamento - parte 1

A indústria calçadista brasileira, de modo geral, espera definições que devem ocorrer ainda este mês em Brasília para, a partir de então, implantar as reformas de base já propostas, necessárias e imprescindíveis para a reorganização da economia e a retomada do crescimento.
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Com efeito, os empresários do setor têm plena consciência de que, em se tratando de uma atividade caracterizada pela ocupação intensiva de mão de obra, pela alta competitividade de seu produto e pela importância da comercialização externa, não há como planejar em termos de investimentos, produção, níveis de produtividade e consolidação de mercados se o governo não for capaz de superar os conhecidos pontos de estrangulamento que atrapalham o desenvolvimento do País.
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É neste sentido que direciono meus comentários, tendo em vista assuntos mais sensíveis à atividade calçadista, como a regulamentação do processo de terceirização no âmbito da cadeia produtiva; a adoção de uma política cambial mais realista, em níveis de controle, estabilidade e competitividade a médio e longo prazos, e também o pleito de tornar o Custo Brasil compatível com os modelos adotados por países que vêm crescendo em importância no mercado das trocas internacionais. 
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Empregos em Franca
A esta altura cabe, antes, abrir espaço para trazer à tona um aspecto relevante das dificuldades vividas por um dos mais tradicionais e importantes polos de calçados masculinos do Brasil, que é o de Franca/SP. Importante ressaltar o trabalho bem orientado do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca, alçado na condição de porta-voz dos interesses da indústria local, cujos préstimos podem ser compartilhados com outros centros congêneres do País. E sua sintonia com o Caged – órgão do Ministério do Trabalho que acompanha e registra as admissões e dispensas de empregados – permite informações atualizadas sobre a indústria de Franca, como a que segue. O número de trabalhadores nas fábricas da cidade, de acordo com dados fechados em junho, chega a exatos 22.518, correspondendo ao menor já registrado nesse mês nos últimos 13 anos. Em 2013, foi anotado o recorde de 30.381 empregados legalizados. “Desde então, assistimos à dilapidação da nossa produção, com os postos de trabalho sendo inexoravelmente eliminados, comprometendo também a pujança do parque industrial de Franca”, lamenta o presidente do sindicato, José Carlos Brigagão do Couto.
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Mesmo assim, explica o dirigente, o mês de junho representou uma elevação de 60 admissões em relação a maio (que demitiu 67), enquanto os prognósticos chegam a indicar que se possa fechar o ano – num cenário otimista – com 23,8 mil empregados, ou seja, o equivalente ao ano passado. “Pode ser que isso represente, ao menos, uma interrupção no processo de queda”, supõe o líder do sindicato patronal, mas logo desperta para um problema intrigante: “Todavia, enquanto não for decidida a permanência de Michel Temer e a consequente execução das reformas pendentes, não há possibilidades de prognóstico a longo prazo, até porque não se conhece ao certo o compromisso do Congresso Nacional: se é com o País ou com os interesses pessoais e/ou corporativos”, completa.
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Próximo artigo
Em meu próximo artigo, tratarei com mais ênfase de duas questões nevrálgicas e de crucial importância para a almejada modernização da economia e crescimento sustentado: a regulamentação do processo de terceirização e a proposta de um câmbio realista, administrado mais de conformidade com a realidade do mercado globalizado e menos como âncora para segurar a inflação, como parece ser a preocupação atual.
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09/08/2016 - Luís Carlos Facury
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Visão realista da crise - parte final

Sejam quais forem os aspectos escolhidos para explicar a presente crise do setor calçadista, vale registrar que o mercado, no geral, já emite claros sinais sobre a necessidade de adaptação constante ao perfil de preferências dos consumidores, tanto para calçados femininos, quanto para os masculinos. Com efeito, a moda, em toda parte, se mostra cada vez mais dinâmica.
Independentemente da duração do ciclo adverso e do grau das sequelas dele resultante, o empresário calçadista deve, pois, dedicar especial atenção ao cenário de transformações em curso no perfil do mercado, definidas pela preferência de variadas faixas de consumidores, sempre em busca de novidades e atrativos de toda ordem.

Exemplo
A esta altura, se houvesse condições e respaldo, caberia ao nosso setor industrial seguir o exemplo da bem engendrada conduta adotada pela China, cujo processo de modernização industrial foi alcançado em razão de investimentos maciços no domínio da infraestrutura, seguidos de programas estratégicos de aprimoramento dos negócios. Esse processo integrado, denominado empreendedorismo, envolve um conjunto de práticas econômicas, que tem por objetivo a elevação dos índices de produtividade, a expansão robusta do consumo interno e o alcance de metas ambiciosas de produção e de exportação de manufaturados.
Daí vem a pergunta óbvia: o ramo calçadista, como tantos outros do mesmo perfil tecnológico, poderia ser contemplado pelo governo com medidas eficazes como as que são adotadas no continente asiático, formuladas não por burocratas de gabinete, mas por expertises do ramo?
Ministério
Infelizmente, não há indícios de que o governo brasileiro tenha ao menos se interessado pela questão. Certa feita, cerca de três anos atrás, chegou-se a cogitar da criação de um “Ministério da Pequena e Média Empresa”, que resultou em nada, mas que também não teria qualquer sentido prático, porque, na sua formulação, colocaria no mesmo bojo as indústrias classificadas pelo seu tamanho e não pelo seu grau de tecnologia. Um erro de concepção de principiantes, ou de meros demagogos.
E assim, na medida em que permanece a omissão governamental, ao não oferecer o necessário respaldo ao setor industrial de média tecnologia, o que se tem presente é que países especialmente do bloco asiático já nos incomodam, na condição de fortes concorrentes, amparados por ações inteligentes e objetivas de governantes atentos às exigências dinâmicas da economia moderna.
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03/08/2016 - Luís Carlos Facury
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Visão realista da crise - parte 2

Ninguém desconhece o elevado grau de competitividade registrado na comercialização de calçados, no mercado interno, decorrente, principalmente, do desequilíbrio ainda insuperável entre a expansão moderada do consumo e a capacidade elástica da oferta. Por aí se pode entender o fato de que, no processo das negociações do produto, o calçadista representa, no geral, a parte mais vulnerável, notadamente em períodos de retração mais acentuada do mercado.
Quanto às exportações, o contraponto negativo aos esforços e estratégia de conquista do mercado externo é representado pela instabilidade que tem caracterizado de longa data a política cambial brasileira. Em função disso, até mesmo o promissor ciclo de exportações – que sugere parcerias efetivas com importadores de expressão – tem enfrentado pontos de estrangulamento e solução de continuidade, em detrimento de parcela considerável de importantes indústrias exportadoras. Incluindo algumas pioneiras na modalidade.
Conta-se, ademais, o efeito colateral da redução inesperada da corrente de exportações: aquele em que, em decorrência dos gastos adicionais em modernização para enfrentar a competição internacional, acaba por pressionar os custos dos calçados destinados ao mercado interno, ao romper o equilíbrio das fatias de produção programadas para atender aos dois mercados.
Merece ainda um exame à parte, pela sua relevância, a constatação de que, em nível federal, historicamente o governo central não tem dado a devida importância ao conjunto das indústrias caracterizado pela forte ocupação da mão de obra. Delas, as autoridades responsáveis demonstram ter uma visão muito estreita e até equivocada, em relação à implantação de uma política industrial consciente e bem formulada, sempre que é levado a tratar do assunto.
Mesmo diante da concorrência dita predatória praticada por países asiáticos nas suas exportações de sapatos para o Brasil, nosso governo tem se mostrado recalcitrante quanto a medidas racionais, certamente em razão da importância estratégica, principalmente da China, para a nossa balança comercial. Porém, sem cuidar de medidas compensatórias para o caso.
E, a propósito, é prudente que o setor calçadista se atente para o fato de que, a partir do final dezembro deste ano, a China passará a ser tratada como economia de mercado com o aval da OMC, União Europeia e Estados Unidos. Aí então, nas acusações de dumping, a imposição de possíveis sobretaxas compensatórias passarão a enfrentar maiores dificuldades. O que irá certamente refletir nas taxas de represália ainda vigentes.
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27/06/2016 - Luís Carlos Facury
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Visão realista da crise - parte 1

Exposto inevitavelmente à crise econômica que assola o País, o setor calçadista vem enfrentando sérias dificuldades para sustentar um ritmo de produção capaz de evitar o aprofundamento do processo recessivo, enquanto busca as saídas possíveis para encontrar o caminho da recuperação e estabilidade. Já foi difícil conviver com o quadro de retração do consumo no correr do ano de 2014, quando ainda alimentava expectativa de um ano seguinte mais propício e de indicadores tendentes a reanimar o setor como um todo.
No entanto, o que ocorreu foi mesmo a reversão dessas expectativas, tanto que o ano passado conseguiu, infelizmente, ser mais desalentador e preocupante. E, agora, ao se aproximar do final do semestre, as incertezas persistem, na medida em que se vai tomando conhecimento das enormes dificuldades e desequilíbrios da economia brasileira. Evidentemente, o propósito da presente matéria é o de situar a atividade calçadista no contexto da economia do País, bem como os impactos decorrentes desse período de crise sem precedentes.
Muito embora o estado de espírito predominante entre os empresários do setor seja de muita preocupação, potencializada pelas incertezas quanto ao tempo e em que medida deverá ocorrer a fase de recuperação, percebe-se que ainda restam forças e ânimo suficientes para se acreditar que ainda este ano começarão a surgir indicadores de estabilidade no setor de vestuário em geral. Existe, assim, a esperança de que um comando político mais confiável e racional deste País venha a contagiar positivamente o comportamento das lideranças produtoras, situadas nos principais centros do Brasil. Afinal, o calçadista brasileiro, posto à prova em tantas situações desfavoráveis, nunca perdeu sua vocação de empreendedor qualificado e bem sucedido. Visto isso, torna-se oportuno abrir o foco para os traços estruturais e funcionais que configuram e norteiam a atividade calçadista, notadamente no Brasil.
Classificação
Antes de tudo, o enunciado de análise econômica de que o setor se inclui na classificação das indústrias intensivas em mão de obra. Elas, em geral, se caracterizam, do ponto de vista do sistema financeiro, por níveis de rentabilidade relativamente comprimida e, por consequência, pela escassa capacidade de poupança, incompatível, não raro, com a suficiente formação de capital, tão imprescindível para os investimentos próprios com reflexos diretos nos ganhos de produtividade. Daí o risco de tornar-se frequentemente sujeito à complementação do crédito bancário. E sofre com mais intensidade os efeitos de intercorrências registradas no andamento do processo produtivo. Sobretudo nos casos das crises cíclicas.