Reação já, antes que tarde!

26.09.2017

Sem força e incapaz de esboçar a necessária reação, Franca/SP assiste, entre omissa e resignada, ao progressivo estado de desarticulação do seu grandioso parque calçadista, construído ao longo de várias décadas de evolução, a ponto de justificar o valorizado rótulo de capital nacional do sapato masculino. Tal era a dimensão de sua estrutura produtiva, aliada ao nível da qualificação da mão de obra disponível e à gestão bem sucedida de seus empresários.

Pois bem, essa era de prosperidade já perdeu o sentido e sustentação e é amargamente substituída por um quadro de declínio. Um declínio aparentemente irrefreável, protagonizado pela forte queda da produção, pela deterioração do ambiente de negócios, pela queda brutal de investimentos, pelo comprometimento da produtividade e pelas dificuldades no enfrentamento de um mercado fortemente competitivo.

Produtividade

Pior: contam-se nos dedos, hoje, as fábricas desta cidade que estão operando dentro dos níveis ideais de produção e produtividade, posto que, regra geral, o que predomina mesmo são os indicadores que atestam a elevada ociosidade em relação à capacidade produtiva instalada. Daí que, em tal contexto de retração – e com muitos raros sinais de reativação – surgiu por consequência o fenômeno da dispersão de tantos estabelecimentos industriais, atraídos para outros centros calçadistas, onde as condições oferecidas se mostram bem mais propícias ao desenvolvimento do esforço produtivo.

Com efeito, já há algum tempo, estão deixando Franca aquelas fábricas valorizadas pela sua apreciável estrutura organizacional, capacidade produtiva e elevado conceito de que se tornaram merecedoras nos mercados interno e externo. E, desta forma, claro, enriquecendo o parque industrial receptor, contemplado, além do mais, com o considerável know how francano na área calçadista, adquirido em muitos anos de intensa atividade bem-sucedida.

Dispersão

Se a dispersão tem sido a alternativa viável e exitosa para renomadas empresas nascidas em Franca e onde prosperaram, a sorte reservada para centenas de outras que permaneceram não tem sido favorável, muito pelo contrário, pois continuam enfrentando os rigores da crise econômica instalada no País, com reflexos contundentes nos processos de produção e comercialização, assim como no ambiente dos negócios.

A esta altura, cabe ressaltar que a presente crise econômica não vem afetando com a mesma intensidade os centros produtores de calçados instalados em diferentes partes do território nacional. Mas também a reação local diante da crise tem sido marcada por atitudes diferenciadas, no que se refere à presteza, ao vigor e à eficácia dos procedimentos. E não só da parte dos envolvidos diretamente no contexto do processo produtivo, mas também – e principalmente – de categorizados segmentos ativos e influentes de cada comunidade, em especial das personalidades que constituem o poder público que tem o dever de zelar pelo interesse coletivo, sobretudo em situações de excepcional adversidade.

Luís Carlos Facury

Luís Carlos Facury é economista e professor universitário (Economia Internacional), jornalista e calçadista.

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