Preocupações de empresários após eleições na Argentina

04.11.2019 - Nicolle Frapiccini e João Víctor Torres/Jornal NH

Foto: AFP
Alberto Fernández foi eleito presidente do País em primeiro turno, no dia 27 de outubro
Importante parceira comercial do Brasil, a Argentina terá um novo rumo político a partir de 2020. Insatisfeitos com a crise econômica no país, os argentinos elegeram no dia 27 de outubro Alberto Fernández, como líder da chapa presidencial que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como vice. A resposta que veio das urnas dos hermanos, no entanto, causa preocupação entre empresários. Lideranças de entidades analisam os possíveis impactos dessa troca de governo nos negócios entre brasileiros e argentinos.

O presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACI) de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha, Marcelo Lauxen Kehl, vê a questão com bastante preocupação. "Não é problema ser de direita ou de esquerda. A questão é que os peronistas e, principalmente no governo da Cristina Kirchner, usaram medidas de proteção que não funcionam mais. A tendência é que voltem medidas anacrônicas que são paliativas para os problemas deles", afirma, ao revelar que empresários da região onde a entidade atua, no Rio Grande do Sul, em rodas de conversa, já manifestavam preocupação com essa situação.

Com a certeza de que ainda é cedo para saber o que vai acontecer, o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, revela que a eleição traz o fantasma de barreiras aos calçados brasileiros exportados para a Argentina. "Mesmo que ele venha de uma história mais protecionista, a relação é necessária para os dois países. O temor é que eles voltem com as barreiras em função da demora da recuperação econômica. O impacto dependerá do comportamento da economia argentina", comenta, ao lembrar que recentemente os prejuízos do setor chegaram a mais de 200 milhões de dólares por causa das barreiras.

Dois fatores considerados

A superintendente da Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Ilse Guimarães, considera dois fatores. "A primeira é uma possível volta das barreiras e a outra a manifestação mais animada dos argentinos com essa mudança pelo fato de proteger a indústria local, o que é positivo porque eles já começaram a buscar nossos produtos."

8,4% é a participação das vendas para a Argentina nas exportações de calçados brasileiros

Até setembro deste ano, os hermanos compraram 7 milhões de pares, ao preço de US$ 77,14 milhões, quedas de 25,5% em volume e de 32,9% em valores em relação a 2018. O País vizinho continua como o segundo principal destino do calçado brasileiro no exterior. O Rio Grande do Sul foi o principal estado exportador para a Argentina. No acumulado dos nove meses, foram vendidos mais de 3 milhões de pares.

Saiba mais

O Peronismo, movimento ao qual o presidente eleito Alberto Fernández representa, é a denominação dada ao movimento político pensado pelo ex-presidente Juan Domingo Perón, que foi eleito presidente em 1946, 1951 e 1973, com perfil estadista e popular.

O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, alega receio à volta de barreiras comerciais, como registraram durante o governo o governo de Cristina Kirschner, agora vice-presidente eleita.

Brasil e Argentina devem dialogar,diz deputado

Passada a vitória de Fernández na Argentina, ainda em primeiro turno, lideranças políticas e empresariais analisam o retorno do peronismo ao poder no país vizinho. O deputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS), que integra a Frente Parlamentar Mista em Defesa do Setor Coureiro-Calçadista e é membro titular da Subcomissão Especial de Comércio Exterior na Câmara, diz que o triunfo deve ser visto com cautela. "A retórica do presidente eleito da Argentina é a mesma que levou o país nas últimas décadas à desgraça econômica", observa. Além disso, o parlamentar ainda traz outra preocupação: "Se eles seguirem esse rumo que havia sido tomado anteriormente, isso prejudica toda a economia da América Latina", complementa.

Relações comerciais

Neste contexto, Van Hattem acredita ser necessário construir diálogo com Fernández. Afinal, as exportações brasileiras têm no mercado argentino um de seus principais compradores dos produtos fabricados por aqui. Além disso, o segmento calçadista é mais um que acompanha com atenção os próximos movimentos do presidente eleito, que já trabalha na transição com o atual mandatário, Maurício Macri. Um dos temores é a imposição de taxas a produtos nacionais. "A situação não pode se repetir ou se agravar com o novo presidente", lembra, ao citar o governo da ex-presidente Cristina Kirchner, que será vice na próxima gestão. A respeito do protecionismo, tradicional bandeira entre os peronistas, o deputado espera que não interfira nas relações comerciais entre os dois países. "Se fechar no mundo atual é cada vez pior", analisa.

Negócios em risco

Conforme o presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha (ACI), Marcelo Lauxen Kehl, empresários com negócios na Argentina acompanham atentamente a movimentação política e administrativa no país vizinho. Apenas no avançar do período de transição entre Fernández e Macri será possível identificar o cenário futuro. "Durante as eleições prévias, vários empresários conversaram, inclusive na semana passada, que os negócios estavam menores e de que o planejamento era de reduzir no próximo ano. Imaginam queda de 40% nas encomendas e tentavam redirecionar a outros mercados", diz.

 

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