Maureen Chiquet ressignificada

28.10.2019 - CAROLINA ZENI

Foto: Divulgação
Maureen Chiquet
Em pleno século XXI, em que mulheres ganham cada vez mais voz - e espaço, seja no meio corporativo, em cargos de chefia, na política ou onde elas quiserem -, rótulos só demonstram atraso na maneira de enxergar a realidade como ela é. Aos 56 anos, Maureen Chiquet exibe um currículo de encher os olhos. Passou pela L'Óreal Paris, GAP e foi CEO da marca de luxo Chanel por uma década. É curadora da Yale Coporation e membro da Universidade de Yale, onde se formou em Artes com especialização em Literatura.

À frente destas companhias e tendo liderado grandes equipes, a executiva decidiu apresentar ao público um novo estilo de liderança feminina, onde a predominância masculina no mundo corporativo perde cada vez mais espaço para mulheres de personalidade, livres de rótulos e donas de si. A obra "Do Nosso Jeito" foi lançada ainda em agosto no Brasil e revela que não há quem diga para uma mulher o que ela pode ou não fazer e até onde ela pode ir.

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O relatório deste ano do Women in Business traz dados interessantes quanto à igualdade de gênero dentro das empresas em todo o mundo. A publicação sustenta que a porcentagem global de empresas com pelo menos uma mulher em cargos de chefia subiu de 75% em 2018 para 87%. Relato breve da narrativa expõe que princípios como o aumento da transparência, o relato de diferenças salariais entre homens e mulheres e o diálogo público estão levando os executivos a perceber como essa mudança é necessária. No seu discurso, Maureen traz um novo olhar sobre a perspectiva de sucesso para mulheres. Para ela, ser bem-sucedida no meio corporativo não quer dizer abdicar do lazer ou da família. Sobre o empoderamento feminino, uma carreira de sucesso e ressignificados, ela falou com exclusividade ao Jornal Exclusivo. 

Entrevista com Maureen Chiquet

Ser bem-sucedida no trabalho independente das demais tarefas cotidianas é uma realidade?

Maureen - Muitas pessoas falam sobre "equilíbrio trabalho/vida pessoal" ou "ter tudo", principalmente para mulheres que também estão criando filhos. No meu livro, conto uma história sobre uma época em que minha filha mais velha, Pauline, explodiu comigo. Ela estava com muita raiva por eu ter trabalhado tanto e viajado enquanto ela crescia. Embora tenha sido um momento incrivelmente doloroso para mim (e para ela), alguns meses depois, quando ela estava entrando para a faculdade, ela me agradeceu por ajudá-la em suas demandas. Uma vez na faculdade, ela trouxe todas as suas amigas para ouvir um discurso que eu fiz. E então, quando ela estava se formando e eu a ajudei a encontrar seu primeiro emprego, ela me disse que estava agradecida por eu poder ajudar, apesar de não ter um papel tradicional de "mãe".

O que você aprendeu?

Maureen - Aprendi que é impossível fazer ou ter tudo. Existem compromissos e sacrifícios na vida. Eu me arrependi  de não estar mais lá quando ela era jovem, mas também sei que lhe dei outras coisas que talvez eu não pudesse dar se não tivesse uma carreira. Penso que tentar alcançar a perfeição ou "ter tudo", nos leva ao fracasso e nos faz sentir desapontados ou exaustos quando tentamos alcançar esse falso ideal. O mais importante é saber o que você quer e estar ciente de que sempre há partes da vida que não são perfeitas.

É importante desmistificar o papel da moda nos dias de hoje? A moda é, definitivamente, uma oportunidade de negócios?

Maureen - Para mim, há arte e magia na criação de qualquer tipo de beleza, incluindo moda. Enquanto a moda é para ser usada e, em última análise, tem um fim utilitário, sempre haverá uma mística em uma roupa bonita com a cor, textura e proporções certas.

Quais são os estereótipos que você enxerga que ainda são impostos às mulheres na sociedade atual? O que precisa melhorar?

Maureen - Muitas vezes as mulheres ainda são vistas como líderes menos competentes e menos capazes, especialmente quando não são tão ousadas, agressivas ou barulhentas quanto suas contrapartes masculinas. Acredito que precisamos mudar as culturas corporativas para incluir estilos de liderança muito mais diversos, particularmente aqueles que beneficiarão os consumidores e funcionários experientes, informados e social e ambientalmente conscientes de hoje. Na minha opinião, a solução é começar a dar mais valor a qualidades como empatia, escuta, colaboração, abertura e agilidade, para que um grupo mais diversificado de mulheres e homens possa ter sucesso.

Como é possível ressignificar a palavra "liderança"?

Maureen - Quando pensamos em grandes líderes, especialmente nos negócios, a maioria de nossas referências são homens. E na maioria das vezes, imaginamos alguém muito ambicioso, focado, estratégico, competitivo e visionário. Embora essas qualidades sejam importantes, geralmente negligenciamos a necessidade de empatia, habilidades de escuta, agilidade e colaboração. Em nosso mundo interconectado, global e complexo, essas chamadas "habilidades sociais" não são apenas boas de se ter, mas devem ser. Portanto, acredito que precisamos abrir nossas noções de liderança para incluir e enfatizar empatia, escuta, agilidade, colaboração e mente aberta.

Como foram os momentos como CEO da Chanel? O que ficou de lição?

Maureen - Ser CEO da Chanel era realmente um presente, mas não sem enormes desafios. Isso exigia um tipo de ato de equilíbrio - levar uma marca de 100 anos para o futuro sem trair seu passado, liderar uma equipe global diversificada, com diferentes perspectivas e ideias em direção a objetivos comuns, e se adaptar aos atuais consumidores conectados, informados, social e ambientalmente conscientes,mantendo os produtos e a comunicação alinhados com os valores da marca.

Como você se sentiu quando deixou a companhia após dez anos no comando da marca?

Maureen - Acho que a lição mais importante que aprendi, acima e além dos negócios, não importa onde trabalho, meus valores devem estar alinhados com o papel que tenho que desempenhar. Minha partida da Chanel foi extremamente difícil. Eu me identifiquei tanto com esse trabalho que esqueci quem eu era por dentro. Mas também foi bastante emocionante porque me deu a oportunidade de me reinventar e fazer algo totalmente novo. 

 

Obra para fugir de estereótipos

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Do Nosso Jeito
O livro “Do Nosso Jeito” foi lançado, oficialmente, em 2017, nos Estados Unidos, mas foi no mês passado que chegou ao Brasil, tão atual a ponto de continuar trazendo uma nova perspectiva de sucesso para as mulheres sob o olhar de Maureen. Ela deixa claro, na obra, que é possível para elas atingirem o patamar que desejam independente do seu estado civil,número de filhos ou gosto pela moda. Do Nosso Jeito estimula as leitoras a fugirem de estereótipos impostos por elas próprias e pela sociedade. Maureen traz exemplos pelos quais passou – dentro e fora do mundo corporativo – e que a ajudaram a tornar-se mais determinada,obstinada e pronta a quebrar paradigmas. Aliás, uma passagem da obra da ex- -líder da Chanel deixa isso bem claro: “O meu sucesso profissional foi maior do que eu jamais sonhara e, no entanto, foi exatamente o que meu coração e meus instintos me orientaram a fazer”. No livro, a executiva quer ressignificar a palavra liderança, dar a ela uma roupagem livre do machismo, da intolerância e do autoritarismo. Líderes, segundo Maureen, se moldam com o tempo e jamais devem tapar os ouvidos em face de uma opinião divergente da sua.

Sobre ela

A carreira de Maureen Chiquet teve início na L'Oréal Paris em 1985, no setor de marketing. Três anos depois ingressou na Gap como estagiária de merchandising. Em 1994, trabalhou com Jenny Ming (CEO da Charlotte Russe Holding Inc) para lançar a Old Navy. Em 2002, tornou-se presidente da Banana Republic, antes de ir para a Chanel em 2003 como diretora de operações e presidente das operações nos Estados Unidos. Em 2007, tornou-se a primeira CEO internacional da Chanel. Maureen administrou a empresa durante o período de retração econômica de 2008. Sob sua liderança, os negócios triplicaram. Ela deixou a Chanel no início de 2016 para se concentrar no desenvolvimento de novas iniciativas de liderança. Maureen é curadora da Yale Corporation e membro da Universidade de Yale, onde se formou bacharel em Artes com especialização em Literatura em 1985. Ela divide seu tempo entre Paris e Nova York.

Rapidinhas

* Dinheiro é mais importante que...

Fama


* Um acerto

Convencer meus chefes na Gap a vender calças Palazzo quando éramos uma empresa de jeans


* Um erro

Contratar a pessoa errada para um trabalho


* Seu maior vício

Fazer palavras cruzadas do New York Times


* Um hobbie

Fotografia e coleção de arte


* A sua maior decepção

Não seguir minha paixão criativa pela escrita mais cedo na vida


* A sua maior conquista

Meus dois lindos filhos


* O que te faz sentir melhor quando está de mau humor?

Quando meu parceiro fala comigo


* Você tem medo de...

Altura


* Uma comida

Chocolate meio-amargo


* Um lugar

Paris, é claro


* Um sonho

Fazer um programa de TV que eu mesma escrevi


* Falar ou se calar?

Existe tempo para ambos


* Qual foi a última coisa que você aprendeu?

Como escrever um script


* Alguém que você admira

Florence Welch do Florence and the Machine


* Uma crença

Você não encontra o caminho, o caminho encontra você


* E uma dica

Saiba o que você quer, no que é bom e o que realmente precisa para se sustentar

 

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