Empresas confirmam boicote ao couro brasileiro

09.09.2019 - Carolina Zeni e Ruan Nascimento/Jornal Exclusivo

A VF Corporation, empresa responsável por marcas como Vans, Kipling, Timberland e The North Face e a Hannes et Mauritz (H&M), segunda maior varejista de moda do mundo, confirmaram suspensão da aquisição do couro brasileiro em função das queimadas na região da Amazônia, que tiveram significativo aumento em 2019.

No caso da VF Corporation, a confirmação veio ainda em 28 de agosto, quando informou que não continuaria se abastecendo diretamente de couro vindo de curtumes do Brasil. No comunicado, a companhia afirmou que a decisão se mantém "até que haja segurança de que os materiais usados nos produtos não contribuam para o dano ambiental no País". A empresa confirmou o boicote em nota enviada para o jornal O Estado de São Paulo. No Twitter, o presidente Jair Bolsonaro disse que as exportações seguem normais e negou o boicote naquele dia.

Já a H&M anunciou na última quinta-feira (5) que deixará de importar temporariamente o couro produzido pelo Brasil, segundo o jornal Folha de São Paulo. Ainda em comunicado oficial, a marca afirma que "devido aos graves incêndios na parte brasileira da Floresta Amazônica e às conexões com a produção de gado, decidimos suspender temporariamente o couro do Brasil". No documento a H&M também destaca que, a medida continuará em vigor até que se tenha garantias críveis que a produção de couro não cause danos ambientais à Amazônia.

Em nota, o Ministério da Agricultura informou que buscará "mostrar a todos os compradores de couro do Brasil, que a produção agropecuária é sustentável e que não existe motivos para suspensão".

A importação está suspensa em função das queimadas na região da Amazônia, que tiveram significativo aumento em 2019. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em parceria com a Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), este ano tem o maior número de queimadas desde 2010. Em agosto, foram 30.901 focos ativos, um aumento de 196% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Abastecimento responsável

Com 18 marcas de vestuário e calçados, a VF Corporation informou que desde 2017 busca aprimorar o abastecimento global de couro por meio de "estudos para garantir que os fornecedores de couro estejam de acordo com nossos requisitos de abastecimento responsável". Desta forma, a empresa não conseguiu garantir que os volumes mínimos comprados de couro do Brasil cumpram com as normas. "Sendo assim, a VF Corporation e suas marcas decidiram não continuar abastecendo diretamente com couro e curtume do Brasil em nossos negócios internacionais até que haja a segurança de que os materiais usados em nossos produtos não contribuam para o dano ambiental no país", acrescenta a companhia.

Repercussão

O boicote veio à tona no dia 28, quando foi divulgado o conteúdo de uma carta do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), entregue ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no dia 27. O documento mencionava a "suspensão de compras de couros a partir do Brasil de alguns dos principais importadores mundiais". Diante da repercussão naquele momento, horas depois o presidente-executivo do CICB, José Fernando Bello, disse que a carta se tratou de um "erro de pré-avaliação" da entidade e o fornecimento estaria normalizado. Porém, ao final daquele dia, a VF Corporation confirmou que suspendeu a compra. O Jornal Exclusivo contatou José Fernando Bello, mas não obteve retorno.

Reação do CICB

Antes deste posicionamento da VF, Bello afirmou que não havia a intenção de os importadores boicotarem as compras do produto. Segundo ele, o importador teria explicado que continuaria com os pedidos de couro em andamento, mas que gostaria de "esclarecimentos adicionais" sobre a sua origem.

Passada a confirmação dada pela multinacional, o Jornal Exclusivo tentou entrar em contato com José Fernando Bello. O CICB, porém, afirmou que ele não fará mais entrevistas sobre este assunto, e encaminhou uma nota em que a entidade "oficialmente reforça que a indústria do couro brasileiro trabalha respeitando as melhores práticas do setor, em rastreabilidade, reciclos, e as melhores práticas ambientais", reiterando que atua sob uma legislação rígida, apoiada nas leis de todo o comércio internacional, e não somente do Brasil.

O CICB também afirma que os "curtumes brasileiros atendem com louvor a todas as principais certificações internacionais exigidas pelas principais marcas e grupos compradores da nossa matéria prima, respeitando, portanto, aos mais altos requisitos para uma produção social, econômica e ambientalmente responsável", finaliza no comunicado.

Impactos no setor

Diante do boicote das multinacionais, o Jornal Exclusivo também procurou as demais entidades que representam o cluster do calçado, para averiguar movimentos semelhantes em seus mercados.

O presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, afirma que, para o setor de calçados, não houve nenhuma informação de fabricantes que possam ter tido alguma movimentação de cancelamento de pedidos, em função das queimadas na Amazônia. "É cedo para dizer alguma coisa porque não temos informações de qualquer restrição aos produtos brasileiros. Se pode acontecer alguma coisa, também é cedo pra dizer. Teremos em breve a Micam e depois da feira poderemos analisar se há algum impacto no consumidor ou no comprador de calçados brasileiros", analisa Ferreira.

No setor de componentes, não houve cancelamento de pedidos por conta das queimadas, é o que também reitera o presidente da Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Milton Killing. "Não vai dar repercussão alguma. Dados mostram que as queimadas estão dentro da normalidade, porque lá é muito seco", acredita.

Cautela é a palavra que permeia os pensamentos do presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), Marlos Schmidt, com relação a este assunto. Ele comenta que no setor de máquinas, não houve nenhuma movimentação ligada a boicote, principalmente ligadas aos incêndios na floresta. "Esperamos que qualquer tipo de intervenção que venha a acontecer nesse sentido seja facilmente resolvida, até porque os setores do couro e do do calçado têm uma relevância mundial, tanto junto aos fornecedores, quanto aos próprios clientes", pontua.

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