Guerra comercial EUA versus China

05.08.2019 - Carolina Zeni e Michel Pozzebon / Jornal Exclusivo

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Guerra comercial China x EUA
São inúmeras as justificativas que explicam a guerra comercial travada por Estados Unidos e China, duas das maiores potências econômicas do mundo. A intenção do atual governo americano de proteger sua propriedade intelectual é uma delas, assim como trazer de volta antigos elos industriais pedidos para outros países ao longo das últimas décadas. Já pelo lado chinês, as retaliações indicam uma vontade de avançar em direção às etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva. Apesar do imbróglio dos governos de Donald Trump e Xi Jinping serem capazes de estremecer a atividade econômica do mundo, há lacunas abertas que podem ser exploradas pelo Brasil.

De acordo com o economista, mestre em Economia Política e Doutor em Teoria Econômica, Orlando Assunção Fernandes, as lacunas abertas pela guerra comercial entre EUA e China poderão ser aproveitadas pelo Brasil. Diante da atual letargia econômica brasileira e o desejo da atual equipe econômica de abrir as fronteiras e transformar o Brasil em um player relevante no comércio internacional, argumenta o profissional, tal contexto pode se traduzir em uma oportunidade de novos negócios – ou da ampliação daqueles já existentes – seja para o setor agropecuário ou para o setor industrial.

Competitividade

Entretanto, para se beneficiar deste cenário, será necessário superar problemas endêmicos, como a elevada carga tributária, a baixa produtividade da mão de obra e a carência de investimentos em setores
chaves para melhorar a competitividade dos produtos brasileiros no exterior, como os setores de energia, transporte, portos e aeroportos. “Sem fazer essa lição de casa, mais do que não conseguir aproveitar eventuais oportunidades, poderemos nos tornar apenas mais uma vitima desta escalada protecionista
global”, analisa Fernandes. 

Como a disputa pode atingir o Brasil

Os efeitos da guerra comercial entre China e Estados Unidos podem recair sobre todos os países, inclusive o Brasil. “As exportações brasileiras já perderam fôlego em 2018, e tanto a balança comercial como o saldo em transações correntes não apresentaram os mesmos bons resultados registrados em 2017”, explica o economista. O superávit de US$ 53,6 bilhões da balança comercial no ano passado, cita o profissional, representou uma queda de 16,3% sobre o saldo obtido em 2017, resultado de uma maior expansão das importações frente às vendas de nossos produtos no exterior.

Segundo Fernandes, se o crescimento das importações se deveu a uma forte demanda reprimida por bens importados, aliviada, em parte, pela interrupção da recessão brasileira e pela leve melhora nos níveis de renda e emprego, para a trajetória das exportações brasileiras tem sido decisiva a perda de dinamismo do comércio internacional, devido às medidas restritivas impostas pelas superpotências, as quais têm
elevado o protecionismo global, promovendo incertezas e exercendo constrangimento sobre o fluxo de comércio internacional.

Quais setores podem ser os mais afetados?

De acordo com Fernandes, naturalmente, os setores mais afetados são sempre aqueles que são objeto
das medidas restritivas. Entretanto, em um sistema produtivo caracterizado por cadeias globais de valor, nas quais a produção e a montagem são distribuídas entre espaços físicos distintos, o maior protecionismo pode atingir os mais diferentes setores e nações, tornando mais complexas as relações comerciais que já
passam por significativas transformações, devido à revolução tecnológica em curso.

Internacionalização

O profissional cita um estudo da Organização Mundial do Comércio (OMC) que trata dos efeitos de um contexto internacional mais protecionista que já estão sendo sentidos. De acordo com a OMC, “o número de medidas restritivas ao comércio internacional avançou 22% em 2018 frente aos doze meses anteriores e a imposição de barreiras atingiu uma fatia de quase US$ 600 bilhões do fluxo mundial de comércio, quase seis vezes maior do que em 2017”, salienta Fernandes.

A organização, em outro estudo, confirmou que o ritmo de expansão do comércio internacional caiu de
4,6% em 2017 para 3,0% em 2018. “Segundo suas previsões, será ainda menor em 2019, algo em torno dos 2%. Assim, fica notória a perda de dinamismo do comércio exterior mundial, reflexo desta guerra comercial”, observa o economista. Segundo ele, essa perda de dinamismo trará reflexos à economia mundial, reduzindo o ritmo de crescimento econômico global, o que acabará sendo sentido por todas as nações – em maior ou menor dimensão.

Para frear o avanço econômico da China

Na avaliação de Charles Tang, presidente da Câmara Brasil-China, a guerra comercial tem um propósito bem definido. “É uma guerra que não começou com Trump e nem vai terminar com ele. O propósito é impedir o avanço econômico e tecnológico da China. E, a guerra comercial é um dos instrumentos
para isso”, afirma Tang.

O dirigente enxerga que a disputa caminha para um acordo. “Se chegarmos a um acordo, que deve ocorrer até o fim do ano, a China vai ter que comprar muito mais dos Estados Unidos e muito menos do Brasil”, avalia. 

De toda forma, mesmo que americanos e chineses cheguem a um denominador comum, Tang avalia que o acordo poderá beneficiar, de certa forma a economia nacional. “As economias brasileira e chinesa são complementares. Já, Brasil e EUA são concorrentes. O ponto positivo é que o brasileiros têm boa relação comercial tanto com chineses quanto com americanos”, destaca.

Couros e calçados

A maior parte dos itens usados pelos norte-americanos para exportar couros não estão incluídos nas contramedidas anunciadas pelos chineses, de forma que 98% das vendas externas americanas seguirão sujeitas aos 5% de imposto de importação, que está em vigor desde 2018.

“A China segue comprando couro americano, sem buscar alternativas em outros países. Entretanto, os produtos em couro fabricados na China estão incluídos na retaliação americana de maio, passando a pagar 25% para entrar nos EUA, com exceção do calçado”, comenta o presidente-executivo do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), José Fernando Bello.

Setor de máquinas

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), Marlos Schmidt, avalia a guerra comercial como uma oportunidade para o Brasil. Diante deste cenário, Schmidt pontua que a expectativa é positiva, mas com cautela. 

"Analisando como comércio internacional, todo não alinhamento ou dificuldade de convergência traz algum aspecto negativo, seja direto, por redução do comércio, ou indireto, por insegurança de mercado. E neste caso é ruim pelos dois aspectos. Com dois competidores desse porte tudo muda e as consequências são sentidas nos diversos níveis da cadeia produtiva.”

Update

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no dia 1º de agosto que irá sobretaxar, a partir de 1º de setembro, US$ 300 bilhões sobre importações chinesas. É o mais novo capítulo da guerra comercial entre os dois países, que envolve aumento mútuo de tarifas de importação e restrição de operação da empresa chinesa Huawei em território americano.

O anúncio ocorreu dois dias após a delegação americana retornar do país asiático na primeira conversa entre os dois países após o encontro bilateral entre Trump e o líder chinês Xi Jinping na reunião do G-20, em junho, no Japão. Trump afirma, no entanto, a continuação das negociações.

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