Gigante do calçado

08.07.2019 - Carolina Zeni/Jornal Exclusivo

Foto: Jarbas Oliveira/Divulgação
Pedro Bartelle é o CEO da Vulcabras Azaleia
A Olympikus é líder em vender tênis no Brasil, segundo estudo da consultoria Kantar Worldpanel, e ultrapassa grandes nomes de empresas de calçados esportivos mundiais. Não é à toa que as ações da Vulcabras Azaleia (Parobé/RS) permanecem em constante movimento e com importantes investimentos em pesquisa e tecnologia.
É sobre os desafios enfrentados para que seja possível entregar o melhor aos consumidores que Pedro Bartelle, 43 anos, CEO da companhia, discorre em entrevista ao Jornal Exclusivo. Ao expor seus saltos e quedas profissionais, o empresário revela como enxerga a indústria calçadista brasileira no panorama atual. Bartelle estudou administração de empresas, mas desde muito jovem dedicava-se profissionalmente ao automobilismo na mesma proporção que iniciou nos negócios: com apenas 18 anos abriu sua primeira loja, um outlet da Reebok no Rio Grande do Sul. Depois de três anos, não resistiu e decidiu trabalhar nos negócios da família. “Fazia muito sentido ajudar”, acredita. Depois de um tempo, tornou-se diretor de marketing e foi responsável pela expansão da marca fora do país, na Argentina.
Em 2015 assumiu a presidência da Vulcabras Azaleia, que iniciou um processo de reestruturação. O automobilismo foi uma etapa muito importante de sua vida, assim como o ensinou a ter responsabilidades. “Não é um esporte que você pode praticar no final de semana, você tem que estar preparado. Sinto falta, mas fui suprir toda essa necessidade em outros esportes e, claro, no trabalho.”

Foto: Divulgação
Vulcabras Azaleia
A Vulcabras Azaleia

Fundação: 1952
Sede: Parobé/RS (o maior do setor de calçados na América Latina)
Unidades: Fábricas em Horizonte/CE, Itapetinga/BA e Frei Paulo/SE e unidades administrativas em Jundiaí/SP e São Paulo/SP. No exterior, há duas filiais comerciais no Peru e na Colômbia e 70 lojas Azaleia na Colômbia, Peru e Chile
Colaboradores: 15 mil
Produção: 22 mil pares/dia
Lucro líquido em 2018: R$ 152,1 milhões
Receita em 2018: R$ 1,249 bilhão
Vendas em 2018: 25 milhões de pares e peças
Site: www.vulcabrasazaleia.com.br

Confira, na íntegra, a entrevista com Pedro Bartelle:

A Olympikus é o maior lucro da empresa hoje?
É o maior negócio da empresa há muitos anos. Lembrando que a Vulcabras Azaleia é uma junção. Na Azaleia, antigamente, existia o setor do feminino com a principal marca Azaleia e também a Olympikus. No passado, a Azaleia foi protagonista dentro da companhia. Quando nós a adquirimos, em 2007, a Olympikus já era a maior marca dentro do portfólio das marcas da própria Azaleia.

Qual é a porcentagem?
A Olympikus e o setor do esportivo da companhia representam em torno de 80% do nosso negócio, e o feminino em torno de 20%. Vem em um crescimento dos últimos 18 meses. Admito de uma base um pouco mais baixa, porque vem numa reestruturação, mas vem se posicionando bem. O feminino foi bastante estudado nestes últimos meses. Foi realizada uma reestruturação interna para preparar a empresa à modernidade de lançamentos rápidos, identificação de tendências e troca de modelos constantes. Nós especializamos fábricas, desenvolvimento de produto e falta para a gente trazer a modernidade do estilo, do design, do desenvolvimento dos produtos. Nos sentimos muito confiantes que a empresa estava preparada para fazer essa troca constante de modelos e esse lançamento mais fast-fashion.

A empresa focou em que?
Focamos bastante nas nossas especialidades industriais. Somos especialistas em produção de calçados em EVA, que é a matéria-prima mais nobre que existe nos calçados, que entrega leveza, conforto, amortecimento à base dos tênis. Isso a gente usa também para o calçado feminino. Nos sentimentos bastante seguros de trazer também o Alexandre Herchcovitch (estilista brasileiro) para começar a cuidar do estilo do feminino.

Como está sendo a experiência com o Alexandre?
Ele está fazendo aniversário aqui: um ano de permanência. O principal trabalho dele quando chegou foi reformular todo o setor de desenvolvimento de roupas da Olympikus e colocar seu conhecimento de moda. Ele também é head de estilo do grupo inteiro. O próximo passo seria, naturalmente, levar ele para as outras marcas. O intuito é rejuvenescer a marca Azaleia, uma top of mind, conhecidíssima há muitos anos, e trazer para ela mais modernidade, focado sempre nos dois principais atributos que a gente tem na empresa: conforto e leveza.

Como você busca aprimoramentos?
Eu leio muito, viajo muito e nunca tive muito tempo pra parar, principalmente nesta última década, porque dentro da empresa sempre foi uma evolução e mudanças constantes. De contratos com marcas internacionais, de adquirir empresas, de passar por uma reestruturação. Participo de alguns encontros, a gente tem bastante relação com investidores, com bancos. Minhas ‘pós-graduações’ foram muito práticas, do próprio dia a dia. Gosto de conhecer outras empresas, falo com pessoas do setor e de fora.

Quando você acredita ter sido o seu salto profissional na companhia?
Houve várias etapas interessantes na minha carreira. Como é uma empresa familiar e eu queria muito me desenvolver, em 2003 surgiu a oportunidade de desenvolver a marca Reebok na Argentina e assumir o escritório da Grendene que existia lá, e das nossas marcas. A Argentina, em 2002, teve uma crise muito forte. E o antigo distribuidor passava por muitas dificuldades. Nós adquirimos o escritório dele, licenciamos a marca Reebok para o mercado argentino também. Nessa época nós já tínhamos a Reebok no Brasil. Ali foi o primeiro salto importante da minha carreira porque eu fui cuidar de um negócio fora do País.

Houve quedas?
Sempre tem algumas. Profissionalmente, eu acho que quando eu voltei da Argentina, tinha um plano diferente, que era morar em São Paulo, e me tornar mais protagonista dentro da empresa Vulcabras. Mas não foi uma queda, e sim uma mudança de rota, porque no ano seguinte a gente comprou a Azaleia e tive que sair de São Paulo, onde tinha me estabilizado, e voltar pro sul. Queda foi junto com a empresa no período de recessão, crise de 2011 até 2013, que fez com que a gente precisasse fazer a reestruturação da empresa. Foi um tombo que os maiores culpados fomos nós mesmos por acreditar num crescimento e numa proteção do mercado brasileiro contra importações predatórias que vinham sendo desovadas no Brasil muito fortemente por causa de excedentes mundiais e crises americanas e europeias. Naqueles anos que a gente se prepara para um crescimento, as importações em vez de caírem, aumentaram muito. E isso deixou a empresa inchada, ociosa, e infelizmente tudo que a gente foi se preparando para crescer, recebemos um contra ataque muito forte, o que fez com que tivesse que dar alguns passos para trás.

Como foi a retomada?
Em 2015 foi o primeiro ano de lucro. Crescemos 2% neste primeiro trimestre, o que mostra que, mesmo que num cenário tão incerto quanto está o Brasil hoje, a gente está indo bem.

Como você enxerga a indústria calçadista no País hoje?
É importantíssima. Nós temos 14 milhões de desempregados, números que são auditados, são muito maiores. Uma indústria que emprega muito, competitiva, temos tecnologia, parques fabris, mão de obra especializada, inteligência do calçado, moda, brasilidade, tropicalidade. A única coisa que não tem é uma mão de obra muito barata como no mercado asiático, mas o erro está lá, não aqui, então podemos competir com qualquer país. Vejo hoje um mercado apreensivo porque o otimismo não se concretiza, mas vejo as coisas estáveis. Todo mundo se preparou para ver uma retomada. Sou otimista e acho que melhora.

Algo te preocupa com relação ao setor?
Me preocupa o Brasil continuar competitivo. Isso não quer dizer só impostos de importação ou auxílios a essa indústria, mas previsibilidade. Quando tiver isso e essa volatilidade diminuir, vai ser mais fácil de prever. Vejo o varejo também esperando essa melhora que não vem.

A crise mudou os hábitos de se consumir calçados?
Sim. Infelizmente o poder aquisitivo diminui, o preço do calçado diminui e isso se torna um pouco mais simples. A indústria de calçados se moderniza muito. Não quer dizer que o consumidor esteja perdendo performance, conforto e qualidade, mas sem dúvida não é mais uma compra impulsiva. É bastante consciente e muda também o tipo de calçados: eles tem que durar mais tempo, ser mais curinga, por isso a Olympikus é líder de mercado, calçado que entrega muitos atributos mas que também você pode ir para a academia, que é resistente, dura bastante tempo. O consumidor está mais atento nisso.

E como você avalia o governo Bolsonaro para os negócios do setor?
Eu sou um otimista, um apoiador. Acho que nós temos um novo governo e temos que fazer de tudo para que as coisas andem bem no Brasil. Eu não falo sobre as minhas preferências políticas, mas nós precisamos todos (governo, empresários), empurrar o Brasil pra frente. Espero que os planos econômicos andem para frente para que o Brasil possa começar a ter um pouco mais de crescimento. O que compete a todos é ajudar o Brasil e não o governo em si.

Dentro deste cenário competitivo, como a empresa lida com isso?
Nós somos bastante competitivos, olhamos muito o mercado, nos defendemos e somos muito rápidos. Identificamos tendências, nos protegemos e olhamos sempre uma preferência de mercado. Mas nós temos uma inteligência de mercado muito grande, pesquisas dentro da nossa casa que tem nos ajudado bastante.

Qual a valorização do brasileiro quando está comprando um calçado esportivo?
Ele vê no calçado esportivo muita inserção social. As marcas são uma maneira em que os brasileiros se inserem socialmente. É um objeto de desejo, muito relevante você estar com uma credibilidade do que você usa para se inserir. Ele também vê nos calçados um status. Nunca pode se abrir mão do conforto e da durabilidade. Esses são os principais atributos porque desempenho os calçados tem. Um calçado moderno, no estilo correto e sendo multifuncional é o que brasileiro mais olha.

Quais são os desafios de se trabalhar no ambiente familiar?
Acho que tem suas vantagens e desvantagens. As vantagens é você pode ter com certeza absoluta as informações e feedbacks e ensinamentos muito corretos, porque de certa maneira você está trabalhando em família. Tem bastante dificuldades porque eu peguei uma empresa de muito sucesso, uma história que eu admiro muito até hoje.


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