PIB e indústria

13.05.2019

O PIB brasileiro cresceu 1,1% em 2018, repetindo a taxa de expansão observada em 2017. É possível então concluir que o país manteve o mesmo ritmo de recuperação observado no ano anterior? Não parece ser o caso, segundo análise do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). A instituição alerta para dois aspectos relevantes quanto à qualidade da recuperação da economia brasileira, que diferenciam os dois anos: a trajetória do crescimento e a participação do setor externo.

No que se refere à trajetória de expansão, o PIB de 2017 ganhou impulso ao longo do ano, saindo de crescimento de apenas 0,1% no 1º trimestre para alcançar 2,2% no 4º trimestre. Em 2018, contudo, a economia estabilizou-se numa taxa de crescimento baixa, de 1,1% no primeiro semestre e de 1,2% no segundo. Ou seja, houve perda de qualidade na recuperação. Dado o baixo dinamismo observado, a economia brasileira apresentou em 2018 produção 5,1% menor, em termos reais, daquela registrada em 2014!

A indústria é o setor produtivo que mais sofre com a estagnação da economia brasileira. Embora todos os setores tenham apresentado desaceleração relativa em 2018, a indústria foi a mais afetada, sobretudo a manufatureira e a de construção civil. O ramo manufatureiro, que crescera 3,8% no 1º trimestre de 2018, registrou recessão de -1,5% no 4º trimestre. A construção civil, fortemente atingida pelos processos da lava-jato, encolheu 2,5% em 2018, amargando seu quinto ano consecutivo de recessão.

No que diz respeito ao setor externo, a análise do IEDI lembra que a demanda externa em 2017 não beneficiou nem prejudicou a economia brasileira, contribuindo com apenas 0,1 ponto porcentual no crescimento do PIB. Em 2018, contudo, ela retirou 0,5 ponto porcentual do PIB, devido à desaceleração das exportações (de +5,2% em 2017 para +4,1% em 2018) e à aceleração das importações (de +5,0% para +8,5%).

Embora parte da expansão das importações indique um ligeiro aumento dos investimentos de algumas empresas em máquinas e equipamentos, o resultado global das contas externas, conjugado à estagnação da taxa de crescimento global da economia doméstica, parece evidenciar uma perda relativa de competitividade do comércio exterior brasileiro em 2018, num ambiente externo muito menos benigno em razão das disputas comerciais entre EUA e China.

Câmbio pouco competitivo, infraestrutura logística sucateada, sistema tributário oneroso para as empresas, custo de capital elevado e investimentos irrisórios em pesquisa e desenvolvimento são os diversos obstáculos que se somam para impedir ganhos de produtividade e de competitividade na economia brasileira, sobretudo no caso da indústria, segmento produtivo mais penalizado e sensível a esse arranjo econômico adverso.

A redução do desemprego (ainda superior a 12%) e a recuperação das fortes perdas registradas no biênio 2015-2016 (queda acumulada de 7%) exigem, obviamente, uma retomada mais robusta da atividade econômica – retomada esta que vem sendo muito mais lenta do que a observada historicamente no Brasil, após episódios de recessão.

O grande problema é que o país parece jogar todas as fichas da recuperação da economia na implementação de um conjunto de reformas (previdenciária, trabalhista, orçamentária) que parecem apontar muito mais para um encolhimento futuro do mercado interno do que propriamente para incentivar a expansão da produção. Tema para outra coluna.

Andrés Vivas Frontana

Andrés Vivas Frontana é economista, mestre e doutor em Teoria Econômica pela USP e professor da ESPM, no curso de Administração.

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