Uma decisão inesperada

27.06.2018

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil (BC) decidiu, de forma surpreendente, em sua última reunião de maio, manter a taxa Selic em 6,5% a.a., colocando fim ao ciclo de doze cortes consecutivos que se iniciou em outubro de 2016.

A decisão de manter a taxa básica de juros da economia em 6,5% foi interpretada pelo mercado como um sinal de cautela do BC diante da recente desvalorização cambial.

As tensões com o Irã e a pressão sobre os preços do petróleo e, por conseguinte, sobre a taxa de inflação nos Estados Unidos, fez crescer no mercado a expectativa de que os juros norte-americanos devam subir mais rápido que o esperado. Este fato tem conduzido a uma disparada do dólar.

A questão é que, com juros mais altos, os Estados Unidos (considerado país de risco zero) se tornam mais atraentes aos investidores. E estes tendem a tirar seus recursos de outros mercados, como o Brasil, fomentando a tendência de desvalorização do real.

Quando isto acontece, naturalmente aumenta a pressão sobre a inflação no Brasil, já que muitos bens de consumo e também insumos e componentes da indústria são importados. Foi esta a principal razão que levou os membros do Copom a optarem em não reduzir a taxa básica de juros, após o dólar subir mais de 11% e ter atingido seu maior patamar em mais de dois anos.

Todavia, apesar disso, a expectativa geral era de que haveria uma nova queda da taxa Selic. Tais expectativas se formaram devido à letargia da retomada econômica e ao fato da inflação estar abaixo da meta. Além disso, se deve, principalmente, à sinalização dada pelo próprio BC durante os dias que antecederam a reunião.

Os comunicados anteriores do BC, bem como declarações dadas dias antes da reunião - inclusive pelo próprio presidente da instituição, Ilan Goldfajn -, indicavam que haveria um novo corte de 0,25%. Questionado, dois dias antes, se a recente alta do dólar poderia mudar a decisão (quase literalmente expressa na ata da última reunião do Copom), Goldfajn chegou a afirmar que haveria espaço sim para uma nova redução adicional de juros. Ele enfatizou, ainda, que a variação do dólar é uma questão internacional e o que importa para o BC é o nível de atividade e a expectativa de inflação.

O fato é que, independente da correção ou não da decisão tomada, a mudança de última hora acabou surpreendendo os analistas de mercado. Foram gerados ruídos desnecessários de comunicação, que acabam por dificultar a ancoragem das expectativas dos agentes, o que pode levar a questionamentos sobre a capacidade do BC em executar corretamente sua política monetária.

Se o que se quer é maior liberdade para corrigir rumos da política monetária, diante de eventos exógenos inesperados, então talvez seja melhor o BC evitar se comprometer tão abertamente com uma decisão, como se fez às vésperas desta última reunião.

Evitar tais ruídos traz benefícios para a toda a sociedade.

Orlando Assunção Fernandes

Orlando Assunção Fernandes é economista, mestre em Economia Política e doutor em Teoria Econômica pelo Instituto de Economia da Unicamp. Professor e chefe do Departamento de Economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de São Paulo.

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