Hermanos em 1º lugar

25.04.2018 - Michel Pozzebon / Jornal Exclusivo

Foto: Fotolia.com
Entre janeiro e março, a Argentina foi o principal destino das exportações brasileiras de calçados
Pela primeira vez na história, a Argentina foi o principal destino das exportações brasileiras de calçados. No primeiro trimestre de 2018, o país vizinho importou 2,4 milhões de pares por US$ 39,14 milhões, altas de 14,4% e de 9,8%, respectivamente. Na lista de maiores importadores do produto Made in Brazil, os hermanos ultrapassaram os Estados Unidos, que desde 2017 têm diminuído as compras em função das oscilações cambiais – no ano passado, as exportações de calçados para os norte-americanos caíram 14%, tanto em pares como em valores. As informações são da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).

No primeiro trimestre deste ano, o Grupo Priority (Ivoti/RS), gestor das marcas West Coast e Cravo & Canela, exportou 30 mil pares de calçados para a Argentina, gerando um faturamento de US$ 720 mil, o que correspondeu a um crescimento de 18% em volume e de 21% em faturamento, no comparativo a igual período do ano passado. O gerente de Exportação da companhia, José Fernando Koch, conta que este retrospecto é resultado de um trabalho estratégico que a empresa tem realizado naquele país. “Desenvolvemos um projeto de adaptação de produto e estratégias de diferenciação para aumentar a percepção de custo versus benefício pelo consumidor final. Isso associado a um trabalho personalizado de acompanhamento do mercado argentino, buscando adaptar-se e responder de forma rápida e eficaz às suas oscilações”, explica Koch, que concedeu a entrevista direto da Argentina.

Atualmente, o Grupo Priority está presente em mais de 40 países e a Argentina corresponde a 15% do volume exportado anualmente pela companhia. Trata-se de um dos mercados mais tradicionais para a calçadista gaúcha, que vende para lá há mais de 15 anos. No ano passado, as exportações para aquele país cresceram 27% em volume e 29% em faturamento, no comparativo com 2016.

USAFLEX: estratégias comerciais agressivas

As exportações da Usaflex (Igrejinha/RS) para a Argentina cresceram no primeiro trimestre deste ano. As vendas da calçadista para aquele mercado aumentaram 27% em volume e 41% em faturamento no comparativo com igual período de 2017. Atualmente, responde por 15% das vendas externas da companhia, que começou a exportar para os hermanos em 2015. “Acreditamos que este resultado é fruto da implementação de estratégias comerciais agressivas em conjunto com nosso distribuidor”, frisa o gerente de exportação da empresa, Rodrigo Berz.

A Usaflex tem no país vizinho um dos seus três principais mercados internacionais. Seguindo os resultados do ano passado, quando as vendas da empresa para lá cresceram 21% em volume e 38% em faturamento, no comparativo com 2016, a calçadista projeta manter sua trajetória de crescimento no mercado argentino neste ano.

Renda menor compromete exportação

Trabalhando há mais de três décadas com o mercado argentino, a Calçados Wirth (Dois Irmãos/RS) destina 5% de sua produção anual de calçados ao país vizinho. Contudo, as vendas da empresa para lá têm regredido ao longo dos últimos anos, especialmente por conta da diminuição do poder aquisitivo da população argentina. “Como nossa linha de produto é de valor agregado, não conseguimos competir no mercado argentino com quem faz volume e, consequentemente, preço baixo. Não conseguimos competir em outras faixas de mercado que não seja o de valor agregado”, analisa o diretor da companhia, Ricardo Wirth.

FATO HISTÓRICO

A oscilação do câmbio tem, inclusive, provocado fatos históricos nas exportações de calçados. “Os Estados Unidos são nosso principal destino desde os primeiros embarques, no final da década de 1960. É um mercado muito sensível ao preço e, portanto, vêm diminuindo suas compras brasileiras desde 2017. Por isso, acabou sendo ultrapassado pela Argentina no primeiro trimestre”, avalia o presidente-executivo da Abicalçados, Heitor Klein.

RELAÇÃO BRASIL E ARGENTINA

Em 2006, o comércio bilateral entre brasileiros e argentinos era de US$ 19,7 bilhões, e chegou a atingir o pico de US$ 39,6 bilhões em 2011. Mas, desde então, vem caindo. Entre os motivos da queda estão o protecionismo argentino no governo Cristina Kirchner (2007-2015), o acordo automotivo negociado com o Brasil e a crise econômica nos dois países.

Agora, Brasil e Argentina têm líderes considerados liberais. Mauricio Macri tomou posse em 10 de dezembro de 2015, e Michel Temer assumiu em 31 de agosto de 2016, após a cassação do mandato de Dilma Rousseff pelo Senado. Mas, mesmo a entrada de dois presidentes pró-mercado ainda não refletiu em um aumento do comércio bilateral em comparação com o período Kirchner-Rousseff. “Pela primeira vez em muito tempo, os dois governos olham para o mesmo horizonte. Não existem crises econômicas domésticas impedindo que algum dos dois países se feche ao comércio”, afirma o diretor da Câmara de Comércio Argentino Brasileira (Camarbra), Gustavo Segré.

O maior superávit da história

O Brasil encerrou 2017 com US$ 8,2 bilhões de superávit comercial com a Argentina, o maior da história bilateral. Para este ano, o dirigente da Camarbra projeta um superávit próximo dos US$ 10 bilhões. Porém, ele comenta que os entraves ainda existem. “Não há barreiras tarifárias, mas temos barreiras não-tarifárias. São estas de regulamentações ou normativas. Também tem ainda muita burocracia que impede a liberdade de circulação de bens e serviços”, comenta Segré.

Acordo de Facilitação de Comércio

A Argentina ratificou em janeiro o Acordo de Facilitação de Comércio, que reduz os custos nas transações de exportações e importações. Pela OMC, o acordo vigora desde fevereiro de 2017. “O compromisso é que esse acordo comece a ter efetividade prática na metade deste ano.Porém, observa-se que a burocracia nas alfândegas, sobretudo, ainda é muito representativa no comércio bilateral”, analisa o dirigente da Camarbra.
O gerente de exportação do Grupo Priority, José Fernando Koch, conta que as relações comerciais com a Argentina têm evoluído nos últimos anos, mas, com ressalvas. “Com o governo Macri e a redução das barreiras, as operações têm sido mais fluídas, apesar de que a exigência do SIMI (Sistema Integral de Monitoramento de Importações) obriga tanto a empresa quanto o importador a trabalhar dentro de uma programação de compras e com um lead time mais extenso.”

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